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Correia, Vergilio
Monumentos e esculturas
V^H
NA
1321
C6
1919
1
MONUMENTOS E ESCULTURAS
(SÉCULOS III -XVI)
4
/ L?^ ^ DIREITOS RESERVADOS
Depositaria -LIVRARIA FERIN, Lisboa
^ERQILIO CORREIA
Const.iv;idor (lo Museu Nacioiuil ile Arle Anli{;a
MONUMENTOS
E5CULTURA5
(5ECUL05 III-XVI)
Com uma capa desenhada por Henrique Santos Júnior
e ilustrado com mais de 40 desenhos e fotografias
1919
IMPRENSA L1BAMO DA SILVA
Trav. do Fala-Só, 24.
LISBOA
/-"
DO AUTOR
Lisboa preistórica (3 fascículos) 1912-1913
ídolos preistóricos tatuados, de Portugal 191Ò
Azulejos Datados — 1." Serie (esgotado) 1915
Etnografia Artística (obra ilustrada com mais de 80
desenhos e fotografias) 1916
Coninibriga (esgotado) 1917
Arte preistórica (2 íascculos) 1917-1918
Um ti'imulo Renascença — A sepultura de D. Luís da
Silveira, em Gois 1919
Azulejos Datados (2.' edição, aumentada e profusa-
mente ilustrada) 1919
Não pretende o presente volume apresentar-se como iivi
manual de história de arte^ nem intenta^ sequer, documentar
a história de qualquer ciclo artístico oií arqueológico por
meio de uma série de estudos concernentes a monumentos e
esculturas de determinado século ou época. O desejo do seu
autor ao escrevê-lo foi somente enfeixar em manipido homo-
géneo as breves monografias de uma dezena de monumentos
arcaicos que descobrira ou estudara desde 1911 a 1016, e
cuja publicação^ por demorada, ia perdendo interesse.
Dada a raridade dos estudos deste género, entre nós, a
divulgação de mais uns tantos monumentos ou píças artís-
ticas antigas, considerando ainda as dijiculdades materiais
da impressão de um livro de um género que os editores não
acolhem, representa certamente uma obra meritória. Espera
o autor que os leitores lhe retornem em acolhimento benévolo
o esforço que fez para bem o elaborar e apresentar .
Lu m.
KiS. 1
CASTELO DE VIDE. l-^orta romana
tra>:icla cie Aramenlifí (Ocxtniida)
^rcos [Romanos de Portugal
}as seis provincias em que se dividia, ao tempo
de Diocleciano, a cUoecesis Hispaniarum — Be-
tica, Lusitânia, Cartliaginiense, Gallecia, Tar-
raconense e Mauritânia Tingitana — , o Portugal de
hoje assenta em territórios de três, ocupando terras
que pertenceram á Lusitânia i do Douro ao Guadiana),
á Tarraconense (do Douro ao Minho) e á Bética (mar-
gem esquerda do Guadiana).
Embora, porem, em todos os recantos da nossa boa
terra portuguesa aflorem ainda, á superfície do solo,
os alicerces de edifícios que pertenceram a agregados,
ruraes ou citadinos, luso-romanos, poucas regiões dela
conservarão tantos e tão valiosos documentos desse
periodo como o território do conventus pacencis^ que
abrangia toda a Estremadura transtagana, o Alentejo
e o Algarve.
E' neste que se nos deparam, com maior frequência,
inscrições, mosaicos, louças, moedas e, por maravilha
quasi, edifícios ainda de pé, embora roçados fortemen-
te da corrida acelerada dos anos, como os templos de
Évora e Santana do Campo (Arraiolos), as muralhas
de Évora, as termas de Milreu e os arcos de Évora,
Beja e Vila Viçosa.
Ora, destes poucos edifícios ainda de pé, devemos,
quando mais não seja por caridade para com os vin-
douros, arquivar os aspetos e os planos. Deixar perder
qualquer migalha do que nos ficou desse passado, se
não glorioso, pelo menos feliz, é, mais do que incúria,
quasi um crime.
Tendo conseguido reunir um certo numero de foto-
grafias de um dos mais curiosos aspetos da construção
romana, os arcos dos portaes de carater monumental,
aqui as apresento, numa intenção simplesmente do-
cumental.
Não se pense, porem, que se vae deparar com arcos
de triunfo, como os de Roma, Aosta, Orange, etc, ou,
sequer, com portas monumentaes, bastante simplifica-
das, como as de Merida. Se as tivemos, levaram-nas
todas a onda das invasões ou a sanha dos assédios, a
boçalidade dos antepassados ou a fúria civilisadora das
edilidades. De um arco monumental, revestido de már-
mores, se sabe como desapareceu. Era o que ficava ao
topo da praça do Geraldo, em Évora, e que o cardeal
D. Henrique mandou apear para lhe ceder os mármo-
res aos seus amigos jesuítas da Universidade. Como
hoje ficaria bem o monumento naquela praça, tão ca-
rateristica ainda, que eu julgo, pela sua forma retan-
gular, e pela própria existência do arco, ter sido o
fórum da cidade, o autentico /oram da Évora imperial !
O que nos resta, ou o que nos restava ainda ha
pouco, é apenas uma meia dúzia de portaes de volta
redonda, fortes e bem lançados, erguidos no seu pri-
mitivo iugar ou transportados para longe, aos quaes a
silharia grossa dos seus encostos ou aduelas tem pro-
tegido, eficazmente, contra os homens e contra o tempo.
Um dos mais interessantes de todos era, sem duvi-
dii, o de Aramenha, — povoado distante umas três lé-
guas de Portalegre, — que foi levado para Castelo de
Vide (fig. 1) em 1710 e colocado numa das entradas
desta vila, até que em 1891 ('j vandalica e inutilmen-
te o destruiram.
Dos três arcos representados nas figuras 2, 3 e 4, e
que perienceram a antigas entradas da cidade de Beja,
só o ultimo se conserva de pé, tendo os dois primeiíy^s
sido desmanchados, e o de Aviz ainda não ha muitos
anos^ em 1883.
O que existe, fica por traz do Largo da Piedade, ás
portas de Évora, dentro de um quintalorio do prédio
que tem o u." 2 e é pertença do sr. Eduardo Rego, e
ergue-se, afogado de construções de pequeno porte^
entre dois cubelosinhos da muralha medieval, apenas
afastado uns 20 metros de uma das esquinas da cele-
bre Torre Menagem, de Beja, que é, diga-se de passa-
gem, do mesmo gosto e quasi tão interessante como a
de Estremoz, e fundação do mesmo monarca.
Todos os três arcos os reproduzo de aguarelas ex-
postas no Museu Etnológico e feitas pelo malogrado e
modesto artista que foi Guilherme Gameiro, que co-
piou, os das figuras 2 e 3, provavelmente, de antigos
desenhos existentes na Biblioteca de Évora, e o da
figura 4, do natural.
Seguindo as informações que acompanham as pró-
prias aguarelas, e aproveitando as referencias de Ga-
briel Pereira, que, em 1895, descreveu as portas e as
(') César Videira. Memoria histórica da muito notável vila de
Castelo de Vide. — Lisboa, 1^8. A destruição começou em 2 de
novembro de 1891.
10
vulgarisou, e as do sr. Chrisfcovam A\'res ('), conclue-se
que a 6gura 2 representa a Porta de Évora, e a fignra 3,
a Porta de Avis.
E o arco da figura 4 ? Esse, que na aguarela de
G-ameiro aparece apenas designado «por arco romano
de Beja», é, em verdade e afinal, a única, verdadeira
1*
..n
.ir'
BEJA. lr»orta cie Mertol.-i? f/)f,s/nií(/<u
(Seuuiulo uni desenho antigo)
e antiga porta romana «de Évora». E vou explicar
porquê.
Numa brochura intitulada Beja no anno de ISán
{Funchal-184:7), encontram-se referencias ás portas
(') Cfr. Boletim da A. dos Archeologos. — Lisboa 1895, pag. 2G,
e Cristovam Ayres na Htst. do K. Porlii</ucs, vol. I, pag. 448 e
vol. II, pag. 226-223.
11
antigas da cidade. No capitulo II do folheto, lé-se :
«Cingem ainda a cidade de Beja os muros que os Ro-
manos construiram, nos quais existem três portas
(ainda do tempo deles), que são : a de Aviz, a de Mer-
tola, e antiga de Évora, da qual só aparece o pórtico
tapado, junto da Torre de Homenagem». Segundo este
Kig. 3
BEJA. Porta de Avia (Destruído)
(Segundo um desenho anti}$o)
autor, portanto, o arco entaipádo junto da torre é
o das antigas portas de Évora; de acordo com a des-
crição e localisação que fix, esse é também o repre-
sentado na figura 4.
Havia então duas portas romanas de Évora, e si-
tuadas a tão curta distancia, que, entre o arco ergui-
12
do e desconhecido ('i e o estreitamento do Largo da.
Piedade, onde as outras campeavam, antes da destrui-
ção, não medeiam talvez cem metros? Mas, nesse caso,
porque as não cita, a ambas, o autor do folheto-Zíeyfi
no anuo de 1845, que me merece a maior confiança ? (-)
Seria esta nova porta de Évora tansportada para
aqui, de outro ponto ?
Eis-nos era face de ura problema de que se poderá
talvez indicar a resolução.
A figura n.° 4, que data de 1903, não representa já
com fidelidade o local, tal como hoje se encontra. O
pedaço de muralha, quo sobrecarregava o arco, veio
abaixo; a chaminé do fundo desapareceu; e o casinho-
to tosco do primeiro plano foi substituido por uma
outra construçãosinha do mesmo teor. O arco, porem,
permanece, felizmente, em bom estado. Mede 3"', (36
(1) Este arco é, ainda hoje. desconhecido de grande parte dos
habitantes de Beja. Felicitemo-nos cora esta ignorância. Se ele
estivesse situado nalguma rua ou praça, já teria, decerto, ido
abaixo, como os outros.
Embora uo volume VÍII do Arch. Port., a pag. 16", o sr. Leite
de Vasconcelos se arrogue a prioridade da descoberta deste
arco — «...perto do castelo da cidade e das antigas ;)or<as (/c
JCrora, hoje destruídas, existe um arco ou porta romana de que
ainda não vi noticia escrita.. .» — o certo é que tanto o autor
da brochura citada, em 1847, como o sr. Cristóvão Ayres a pag.
418 do vol. I da Hid. do E. P. (1898), se referem a ele.
(-) Mais confiança ainda do que Cenáculo. E a razão disto é
que o autor da brochura confessa ter á vista o «manuscrito de
um homem imensamente laborioso, natural de Beja, por nome
Félix Caetano da Silva, o qual reunia com admirável perseve-
rança uma crescida soma de apontamentos, com o auxilio dos
quaes começou a escrever umas Memorias Históricas da cidade
de Beja».
13
ontre os encontros, e tem, do fecho ao solo, 3^81 de
altura. A espessura dos encontros é de 0,77. A aduela
que serve de feclio do arco, apresenta, virada para o
exterior, certa saliência que um outro investigador
já notou. Segundo me informaram, o dono do quintal,
tendo mandado limpar da terra e vegetações parasita-
Kig. -4
BEJA.. Antiga porta cie Évora
l.^.!>iia!vla de G. (iyineiro)
rias essa saliência, verificou que ela representava uma
cabeça de touro, em relevo, do mesmo gosto de outras
aparecidas na cidade. Hoje, porem, nada de preciso se
distingue.
E este o arco romano por onde saía a estrada de
u
Évora, e que por isso tomou o nome da cidade para
onde se dirigia. Entendendo certa vereação de Beja
que esta porta era insuficiente para o serviço e para
o movimento da cidade, mandou abrir ao fundo do
Largo da Piedade nova porta que tomou o nome da
antiga e passou a substitui-la. Em que altura se efe-
ctuou essa substitnição, ignoro-o. Mas deve ter sido
A roo dti Bolítir.lelc.» (Oliveira do Hospital)
(Kolofínilla de Krancisc-o l.iuirciro)
do século XVI para cá, visto que até essa época o inte-
resse da defesa aconselhava a que se dificultasse o
mais possível o acesso á povoação, e muito especial-
mente ao Castelo que lhe ficava visinho.
Toda a confusão proveio, a meu ver, de um simples
engano do desenhador antigo dos arcos, que deu á
15
porta de Mertola o nome de Évora, arrastando nesse erro
todos quantos posteriormente se ocuparam do assunto.
O arco romano de Évora, chamado de D. Izabel é
suficientemente conhecido, havendo até dele uma re-
produção em postal ilustrado. A figura n.° õ repre-
senta o celebrado arco da Bobadela.
í^orta cio r^alac-io Ducal de Vilaviçosa
(lotogralia do autor)
O ultimo arco reproduzido é o da entrada do velho
palácio ducal dos Braganças, em Vila Viçosa. O aspe-
cto imponente do arco, a almofagem rústica do apare-
lho e o facto de a silharia ser de granito — Vila Viçosa
é terra de mármore e de schistos — levam-me a crer
que o portal, que julgo romano, fosse transladado para
aqui de outro ponto, como sucedeu ao de Aramenha.
o templo romano cleSanfAnadoCampo
(ARRAIOLOS
í*'^S^E ha muito que eu conhecia, do «Suplemento»
ao a Mapa de Portugal», composto por João
Baptista de Castro, a noticia da existência de
um importante monumento romano, nos arredores
d'Arroiolos. Resava assim a respectiva informação
corografica, extraída de um artigo publicado no «Pa-
norama» (vol. X. pag. 130 e seg.) por J. A. da Cunha
Rivara,
Arrayolos «Em sitio não muito remoto do assento
da vila de Arraiolos, a menos de uma légua para nor-
noroeste, (aonde hoje está a pequena aldeia de Sant'-
Ana do Campo) houve povoação romana, o que se
prova pela simples inspeção da mesma igreja de Sant'-
Ana, formada nos restos d'um templo romano, do qual
aproveitaram uma bôa parte das paredes, senão que a
fouce estragadora do tempo, e a mão devastadora do
homem tem derrubado quasi trez quartas partes da
construção».
Mais de 60 anos haviam passado sobre este artigo.
O que restaria do monumento romano ? Conservar-se-
ia ainda ?
A ausência de referencia ao importante edifício nas
Religiões da Lusitânia (fascículo 1 do vol. 3." — Lx.^ 1909)
t
18
e no magnifico trabalho, Monuments romains du PortU'
gal do dr. Mesquita de Figueiredo, fez-me acreditar
durante algum tempo na sua desaparição. Um dia,
porém, — nem tudo se conhece de uma vez — caiu-me
sob os olhos o folheto de Gabriel Pereira, Antiguidacks
romanas em Évora e seus arredores, (Évora 1891) da co-
leção dos Estudos Eborenses^ aonde o templo era nova
e minuciosamente descrito. Resolvi, portanto, visital-o,
o que fiz pela Páscoa de 1916.
Ao que Rivára e Gabriel Pereira disseram, pouco
mais posso eu juntar do que as fotografias e o plano
sumario do vetusto monumento. Ficam assim publica-
dos os documentos do estado em que se encontra, em
nosso tempo, a igreja. As minhas fotografias e plano
não terão, portanto, mais valor do que ilustrarem,
piincipalmente o artigo de Gabriel Pereira, necessa-
riamente melhor, por mais recente, que o de Cunha
Rivára.
Quem chega perante a igreja, depois de atravessar
uma paisagem que, de ha longos séculos, deve ter este
mesmo aspecto, com as mesmas azinheiras de copa
verde escura, tonalisadas, no alto, de verde mais claro,
não pode deixar de irapressionar-se violentamente.
Tem, deante de si, um monumento romano, autentico,
imponente, conservando um pouco da severa grandeza
de todas as edificações que o povo creador da nossa
oivilisação erigiu na metade da Europa submetida ao
seu dominio (fig. 7j.
De facto, no dizer de Gabriel Pereira, «não sofre
duvida que esses restos do primitivo edifício são de
época romana; teem o cunho grandioso e solido que
essa pasmosa civilisação sabia imprimir a todas as
suas obras ; era uma construção vasta, de robusta»
fí*
paredes formadas de grossos siihares faciados fortale-
cidos por contrafortes bastante próximos para susten-
tarem superiormente outros silLares de grandes di-
mensões, formando um friso qus ainda se C( nserva
perfeito na face oriental da egreja» (opúsculo citado,
pag. 29).
Líiçlo poci^te tio toriiijlo
Já Cunha Rivára notara a forma cruciai do edifício
primitivo. Efectivamente, reconhece-se, pela parte
ainda existente e bem conservada dos braços lateraes,
que o edifício se prolongava bastante para o poente e
nascente. Do lado do poente uma estrada cortoue
20
arruinou o braço em cujo extremo se abriga hoje a
casa do sacristão; do lado do nascente, o cemitério da
aldeia acantonou-se dentro dos restos do braço oposto
(figura 8). A parte mais completa do edifício é aquela
onde fica a capela-mór, e esta mesma parte suponho
eu que terá sido sempre a cabeça do templo, cuja entra-
da seria também pelo lado onde hoje se abre a porta
2^rincipal do santuário.
Conserva as paredes grossíssimas, altas uns 6 me-
tros, apoiadas em contrafortes enormes, (fig. 7) muito
chegados uns aos outros, certamente destinados a
aguentar o balanço formidável da abobada, que tem
mais de 7 metros de vão.
Do lado virado ao nascente conserva- se ainda, no
alto do edifício, um monolito atravessado, a modo de
arquitrave. Apoia-se contra essa parte um anexo da
igreja', a sacristia, que Gabriel Pereira considerou
também romana. Nisso discordo eu do ilustre arqueó-
logo. A construção, uma quadra quadrangular, sim-
ples, parece-me posterior, embora levantada com si-
Iharia aproveitada do edifício arruinado.
Dentro do templo pouco ha que notar. O interior é
frio, soturno, com pouca luz. Parece mais que se está
dentro d'uma cisterna, do que num santuário. O altar-
raór fica numa absidiolo que se projeta pouco fora
da j)arede. A porta de entrada actual para a capela-
mór rasga-se, acanhada, entre dois dos grossos gi-
gantes.
Para a esquerda, abre-se uma passagem para a sa-
cristia, que é melhor iluminada. Em toda a parte as
paredes estão lisas e nuas.
O corpo da egreja é desmonotonisado por 4 pilas-
tras, sobre cada pár das quaes se arqueiam dois gros
21
SOS, pesadíssimos arcos. Fariam esses arcos já parte
da construção primitiva? E' muito possivel.
Gabriel Pereira acreditava que o 4.'* braço do edifí-
cio se prolongava uns lõ metros para o norte, ficando
assim o templo com a forma de cruz latina. Mas seria
isto assim? Não apresentaria a construção geral o fei-
O <ii.ie resto do brac^o >lo v:>ocnlo
tio d'um T? O lançamento e vastidão dos braços le-
vam-me, embora sem convicção, a essa hipótese.
Pela grossura das paredes da capela-mór e pelos
seus gigantes vê-se que ela deve ter sido abobadada
O mesmo não pode dizer se com referencia aos la-
dos, cuja espessura de paredes não era própria para ••
aguentar abobada. O tecto, ahi, apoiar-se ia, portanto,
sobre colunas.
Que tudo aquilo é absolutamente romano, não sofre
duvida alguma. Basta olhar para as toscas almofadas
da silharia, iguaes ás da porta de Aramenha, da ponte
de Vila Formosa, do templo de Alcântara, do aque-
duto da Bobadela, etc, para se vêr que o tipo de
construção é o mesmo. Quanto à época de erecção do
edifício, pode, talvez, apontar-se o século iii.
O que era o vasto edifício romano de SanfAna do
Campo? Com toda a verosimilhança um templo. E,
dado que, segundo os antigos autores, ahi apareceram
inscrições latinas com a invocação de Carneiis, prova-
velmente seria um templo dedicado a esta divindade,
deus lusitanico ou anterior, cujo culto prosseguiu.
A existência de um templo de tão avantajadas di-
mensões em lugar onde outros vestígios romanos não
indicam grande povoação, não se deve estranhar. Quan-
tos santuários famosos não se isolam, ainda hoje, en-
tre meia dúzia de casas humildes?
O edifício permanece no mesmo estado, pouco mais
ou menos, em que se encontrava no meado do século
xviii. No Diccionario Geographico do P." IjuÍz Cardoso,
de que o distinto arqueólogo sr. dr. Mesquita de Fi-
gueiredo extratou para o Archeologo Português algumas
informações, depara-se nos a seguinte nota sobre a
igreja de SanfAna:
«He a capella-mór e parte da Igreja feita de pedras
de desmarcada grandeza, lavrada e fabricada: tem cal
até o telhado, e dizem fora obra dos Romanos, o que
2ÍÍ
pf.rece se prova de huma pedra mármore onde se vem
humas letras latinas.»
E continua : «Mandando se accrescentar a Igreja,
taverá dezaseis annos...i) Combinando as datas da
O qvie rest£i"cJo liraço do nascente
publicação do Diccionario com as dos prováveis en-
vios de informações paroquiaes, e com a de 1715, que
se encontra sobre a verga da porta jírincipal, podemos
concluir que a destruição de mais um bocado do ves-
tuto monumento teve lugar no começo do século xviii.
A restauração realizada em 1884 poucos mais danos
causou.
O que resta fazer?
24
Em primeiro lugar levantar uma planta, rigorosa,
perfeita. Depois evitar que se perca o resto deste ve-
nerando monumento, decerto o mais importante do
Alentejo, depois do templo romano de Évora.
Da primeira parte poderá, talvez, encarregar-se o
L.
Fig. IO
Planta do eclificio
ilustre professor sr. D. José Pessanha, que, com os
seus alunos de Arquitetura, já levantou as plantas de
Balsemão e Lourosa. O resto incumbe ás Comissões
de Monumentos, tanto mais que o edifício ó já consi-
derado monumento nacional. Simplesmente a sua de-
signação está errada. Na lista respectiva figuram as
ruinas romanas de S. João do Campo (Arraiolos), em
vez das dô SanfAna do Campo.
A Igreja de Louroza da 5erra da Estrela
[sTUDAVA ainda em Coimbra quando tui convi-
dado por um amigo (^) a visitar o seu conce-
lho, Oliveira do Hospital onde, dizia, se con-
servavam interessantes cousas de arte e arqueologia,
como a capela dos Ferreiros, a Bobadela e a igreja de
Louroza, anterior ao ano mil.
Admirei me. Conhecia as mais antigas igrejas de
Portugal, se não de as visitar, ao menos das referen-
cias dos entendidos e espantava-me que uma de tal
antiguidade tivesse escapado ao estudo dos arqueólo-
gos e eruditos portuguezes.
Sabia de Balsemão, que uma referencia de Filipe
Simões nos «Escriptos Diversos» (-) me fizera visitar
(') O ilustre artista Antero da Veiga, que também amavel-
mente me acompanhou na visita a Louroza.
O presente trabalho foi publicado, em fins de 1911, na «Folha
de Oliveira!, jornal de que aquele meu amigo era director.
Avisado por um amigo da região de que eu havia estado em
Louroza, o sr. Joaquim de Vasconcelos apressou se sofrega-
mente a correr lá e a publicar a descrição na «Arte» do Porto,
vindo mais tarde acusar-me de falta 'de originalidade. O meu
trabalho, saído no jornal citado, justifica-me cabalmente de tal
graçola. O facto veio, porem, demonstrar que o sr. Joaquim de
Vasconcelos é da espécie do José Leite. . .
(-) «Escriptos Diversos» — Filipe Simões, pag. 156 e seg.
20
e que uma serie de artigos do sr. Joaquim de Vascon-
celos, na «Arte» (*) do Porto, tornara mais conhecida.
Considerava-a o mais antigo santuário de Portugal.
Só depois apareciam as pequenas igrejas românicas do
Entre Douro e Minho, todas porem já puramente ro-
mânicas e posteriores ao milénio. Ir-se-ia preencher
uma lacuna na historia da arquitectura portuguesa ?
Num dos derradeiros dias de agosto de 1911 parti
de Oliveira do Hospital para Louroza. O caminho é
delicioso. Estrada da Beira abaixo, levando a acom-
panhar, á esquerda, como gigantesca amiga, a serra do
Colcorinho, dum azul muito negro em que as capelas
brancas da Senhora das Preces mal se distinguiam,
depressa alcancei as Vendas de Galizes. Deixando en-
tão essa que é a mais linda estrada de Portugal, meti
para a esquerda, e, tendo avistado primeiro na desci-
da o convento de Vila Pouca, cheguei rapidamente á
igreja, pouco afastada da estrada.
Louroza é uma terra antiga. Quando outra cousa
não houvesse para o demonstrar, a igreja bastava ;
mas sobejam por lá as provas documentaes.
Em volta da igreja, em frente e do lado direito,
abrem-se no schisto amarelado da região umas tantas
sepulturas com a forma do corpo, perfeitas ainda al-
gumas, destriiidas em grande parte as restantes. As
melhor conservadas fazem parte de um grupo de oito,
que desde debaixo da actual torre se prolonga uns
três metros pelo adro fora, á esquerda da porta prin-
cipal, apreseutando-se quatro ou cinco quasi comple-
tamente perfeitas. Ha-as de adulto e de creança, todas
simples e de arestas vivas, exceptuada uma, que pos-
C) «A Arte». — Revista portuense, 1908.
27
sue, excavado em toda a volta, um pequeno resalto, de-
certo destinado a deixar assentar melhor a tampa,
fosse de pedra ou de madeira. Todas teem no alto a
■cavidade circular destinada á cabeça^ seguindo-se de-
pois o resto da sepultura cora o feitio de um trapézio
alongado cuja base fosse o lado onde se cava a cabe-
ceira. Os lados dos trapézios onde se encontravam os
j)és dos defuntos são levemente arredondados era al-
gumas das sepulturas e a orientação de tudo é nitida-
mente Este — Oest'i^, ou seja a cabeça para o Oriente
e os pés para o Ocidente. Noto- que são demasiado
estreitas, comparadas com as que conheço de vários
outros pontos do nosso pais, onde são vulgares.
Como estas existem mais no concelho de Oliveira
do Hospital, tendo-me sido apontadas algumas em
Salgodins, perto de S. Paio, e dadas informações de
que muitas mais havia, que o tempo e os homens,
mais os homens que o tempo, se tinham encarregado
de destruir.
Para o lado direito da igreja prolongava-se o cemi-
tério, e, embora muito deteriorados, reconhecera-se
clararaente cinco leitos sepulcraes.
Deste lado ha uma porta cujo acesso é facilitado
por uma escada de poucos degraus. Servindo de pavi-
mento, no patamar desta, encontra- se ura raonuraento
funerário romano: uma tampa sepulcral, em feitio de
baú. A sua posição porem está invertida, encontran-
do-se a base, maciça, a descoberto, e o dorso metid®
na parede da escada. Nas partes que tem visíveis, um
<ios topos © a base, não tem inscrição alguma, sendo
porem provável, ou pelo menos possível, que a tenha
no outro topo, ou sobre o dorso.
Estes monumentos, usados pelos luso-romanos não
28
se sabe até quando, encontram-se frequentemente no
Algarve, Alentejo e Estremadura, Colocavam-se sobre
os túmulos e, quando não eram apenigrafos, diziam
08 nomes, filiação e idade do morto, acrescentando
em geral os nomes dos parentes que mandavam cons-
truir o monumento e uma saudação amável como o
clássico sit tibi terra levis.
Um outro achado interessante que fiz foi o de uma
ara votiva. No lado esquerdo da igreja existe um ter-
reno que fica entre a residência paroquial e a capela-
mór; esse terreno é isolado d'uma horta que se esten-
de a N. E., por um grosso muro de alvenaria onde se
abre uma porta que estabelece a comunição entre os
dois terrenos. A porta está ligada á ombreira esquer-
da por uns duplos gonzos, afastados um metro. No
ponto onde se cravam as ferragens inferiores encon-
tra-se deitada uma pedra com as esquinas chanfradas,
cujo feito é o carateristico das aras votivas. *
O espigão do cachimbo foi pregado precisamente
sobre a inscrição, inutilizando algumas letras. Apezar
disso lê-se ainda claramente, em duas linhas, por cima,
O M e inferiormente V. I. As letras O e M parecem
da usual consagração : Deo Óptimo Máximo.
As aras eram também monumentos funerários que
os devotos ofereciam e consagravam aos manes pelos
mortos queridos.
Esta nossa é de granito, dum tipo vulgar, formada
por um paralelepípedo alongado, de secção quadrada,
que nos dois extremos alarga formando base e capitel^
desbastados posteriormente para a pedra ser adaptada,
ao uso que tem. Na parte superior conserva ainda a
cavidade sacrificial, o foculum.
Espalhados pela povoação, utilisados nos alpendres.
29
nas lojas e nas paredes encontrei vários capiteis
antigos e alguns fustes de coluna de variados diâ-
metros.
Para detraz da capela-mór da igi'eja, num pequeno
largo, ergue-se sobre alguns degraus um belo e forte
pelourinho que me parece, pelo apontamento que dele
tenho, do ultimo gótico.
Nas casas nota-se que muitas portas e janelas tem
as esquinas da cantaria chanfradas, apresentando uma
agradável distração aos olhos, cançados das arestas
modernas.
liméMmÊmriíéki
Kig. 11
A. inscriçfio
Este costume de chanfrar as arestas, como ornato,
encontra se já frequentemente no gótico, aparece mui-
to no manuelino, toma foros de cidade durante a re-
nascença e o seu uso prolonga-se na Beira por todo o
século XVI e primeiro quartel do XVII, tendo eu eu-
30
centrado já na região portas assim ornadas, com as
datas de 1627 e até de 1632. (i)
Ha também na freguezia alguns bons exemplares de
edifícios do século XVIII.
Três portas estabelecem a comunicação entre o in-
terior e o exterior da igreja : a principal, emmoldurada,
num arco banal de ombreiras redondas, do século XVII,
a da direita, de que já falei, onde se eníontra a tam-
pa sepulcral arciforme, e uma terceira, á esquerda, que
serve a sacristia e a capela- mór.
Quem descer da residência paroquial ao terreiro
encontra- se em frente desta ultima porta, que á pri-
meira vista nada apresenta de notável no seu simples
caixilho rectangular.
Se, porém, olharmos com atenção, depressa repara"
mos que, espalhados pela massa da parede e fora dos
se\is logaros, se encontram os silhares completos de
uma primitiva entrada, cuja armação de pedra tinha
na parte superior a forma do arco de volta ultra semi-
circular.
Entra-se e está-se numa pequena sacristia, logo a
seguir na capela mór e, descendo um pouco, encontra-
mo-nos dentro do corpo principal da igreja, em cujo
solo levantaram um estrado de relativa altura para
tornar menos sensível a diferença de nivel entre a
capela-mór e o resto do edifício.
(1) 1627, na capelinha da S." da Ribeira, sob a Povoa das
Quartas, no limite do concelho de Oliveira do Hospital, e 1632
no portal de uma casa da Bobadela.
31
O corpo da igreja acha-se dividido em três naves de
desigual largura, sendo a central a mais ampla. A co-
municação entre elas faz-se de um e outro lado, nas
paredes divisórias, por três arcos seguidos, de volta
mais que semi- circular, sendo o todo estremaraente
singelo e sem ornatos. A serie dos arcos apeia se nos
dois estremos em impostas bastante salientes e nos
intervalos em ábacos rectangulares que repousam so-
bre colunas de uma espécie de ordem toscana.
Os capiteis são do tipo vulgar dessa ordem, iguaes
ás bases de coluna de S. Pedro de Balsemão, precisa-
mente do tipo dos muitos, romanos, que aparecem por
todo o pais e especialmente semelhantes aos de Ida-
nlia a Velha, cidade que, como é sabido, conservou
importância, até á conquista árabe. Os fustes são lisos
e vão perder-se sob o taboado do estrado que cobre o
pavimento, impedindo que se veja por inteiro a cons-
trução.
Sobre o arco da capela-mór, ao centro, olhando o
corpo principal, ha um retabulosiuho de pedra com a
Crucifixação. Assunto e logar de colocação são fre-
quentes em templos góticos do distrito de Coimbra.
Deste género existe um, muito bom, na igreja da Pam-
pilhosa do Botão.
Na nave esquerda ha algumas particularidades : no
topo dela aparece, desemtaipado já, um arco que esta-
va metido na parede e estabelecia outrora uma segun-
da passagem para a parte superior do templo. Esse
arco é perfeitamente igual aos restantes.
Ao fundo da mesma nave começa uma escada de
pedra que conduz ao coro. Ali, sob uma janela gemi-
nada cujos arcos também são de ferradura, encon-
tra-se embutida na parede, ao rez do soalho, uma
32
grande lage onde se acha gravada a certidão de idade
da igreja. Lá está bem claro : ERA dccccx : A ultima
letra, que eu primeiro confundi com um x mal feito,
está provado definitivamente que é um l.
Descendo, encontramos ainda, a seguir aos arcos
lateraes, quasi debaixo do coro, duas capelas modifica-
das no século XVII juntamente com o portal da igreja.
A época exacta da sua reconstrução é talvez 1632
porque é esta a data que se encontra no altar da ca-
pela da direita.
Nesse mesmo altar, a um lado, ha uma interessante
virgem gótica do tipo das que o Museu do Instituto
guarda, do século XIV, e igual ás duas do retábulo da
capela dos Ferreiros, em Oliveira. A imagem está co-
roada de coroa baixa, aberta, assentando no lenço que
lhe cae sobre os ombros, e tem o menino ao colo, de
lado, apresentando ela o corpo torcido, ca^nhré com o
movimento de o segurar, p.titude que é cheia de vida
para a rudeza da época.
Sobre a parede, onde se crava a ultima imposta da
arcaria esquerda, no fundo da igreja, está gravada
uma data que, pela rapidez da minha visita e pela ca-
mada de cal que a cobre, não pude ler completamente.
As letras estão em duas linhas sobrepostas, separadas
por um traço e lê-se por cima COXXVI, e inferior-
mente, E. M.
Conhecida já a época da construcção do monumento
de Louroza, ocorre perguntar. No tempo em que foi
levantado, não estava a Península em poder dos ára-
bes e africanos ? Consentiriam eles que os cristãos eri-
gissem templos da sua religião ?
Facilmente se responde a estas interrogações. O
árabe era tolerante como o fora o romano e fechava
na
Aro o laternl
OS olhos ante essas crenças diferentes que humilde e
publicamente se praticavam, porque nenhum perigo
politico lhe traziam. Construiram-se até igrejas e con-
ventos. Numerosíssima foi a população monástica mo-
sarabe porque os mahometanos consentiram a sua
M
continuação. Na serra de Córdova viviam em paz mui-
tos frades e em Portugal o mosteiro de Lorvão, da
ordem de S. Bento, fundado no século vii, conserva-
se e, progredia. A razão da raridade das construções
religiosas vigisodas e asturianas deve-se, não aos ára-
bes, mas sim ao furor de reformar de que os portu-
gueses sempre sofreram do século xii ao xx.
Podia portanto a igreja ter sido fundada em pleno
domínio sarraceno; mas não precisamos sequer de re-
correr á benevolência dos infiéis : basta-nos o exame
da cronologia da época, apezar dos documentos serem
poucos e vagos, para ficarmos convencidos de que o
devoto ou devotos que a mandaram construir, viviam
em território cristão reconquistado.
Os árabes entraram na Peninsula em 711 ou 712 e
depressa a tinham em seu poder, exceptuada a parte
mais norte. Nos fins do mesmo século viii já Afonso ii,
o Casto, faz uma correria até ás margens do Tejo. (^)
Entre 866 e 910, Afonso iii senliorea-se das regiões
de Lamego, Vizeu e Coimbra. (-)
Coevas de Louroza e identicamente construidas são
as igrejas asturianas que os reconquistadôres da parte
norte da Peninsula iam levantando onde quer que
assentavam as suas tendas com demora.
A reconquista começara terminada apenas a ocupa-
ção árabe. No alto das montanhas haviam ficado, inde-
pendentes e indomáveis, os rudes habitantes das Astú-
rias, e agora precipitavam-se como um rio em cheia
(') «Historia de Portugal» —Herculano. l.''ilo.
' (2) oPort. Mou. Hist », — «Scriptores», 20, e um magniíico arti-
go sobre cronologia medieval publicado pelo sr. Pedro de Aze-
vedo no «Arqueólogo Português» Vol. 13, pag. t>7 e seg.
35
sobre o.s seus inimigos, começando um embate formi-
dável que só sete séculos caídos conseguia romper e
levar para o mar as muralhas que lhe opunham.
Essa reconquista teve, do século viii ao xi, o pe-
ríodo mais perigoso e duro, porque de um momento
para o outro os árabes podiam reunir se e subverter
os incipientes reinos cristãos. Nesse espaço de três
séculos o estilo seguido nas construções foi o anterior
estilo visigótico, um tudo nada modificado. O arco de
ferradura adoptado nos edifícios da época foi uma
natural consequência da arquitetura cristã, cuja tradi-
ção os asturianos representavam. Basta citar para
exemplo as igrejas de Lino, Naranco e Lena.
Louroza integra-se portanto dentro de um ciclo de
construções de caracter defioido, infelizmente sem
outro representante em Portugal. Balsemão, nos arre-
dores de Lamego, é, segundo o ilustre escritor espa-
nhol D. Vicente Lamperez, visigótico e do século vil.
Em números sucessivos da Arte^ revista portuense,
inseriu em 1908 o sr. Joaquim de Vasconcellos um
■estudo sobre o que ele chama o único exemplar da
arquitectura latino- bizantina em Portugal,
A nossa historia da arte tem agora para colocar ao
lado dela a não menos notável igreja de Louroza, do
concelho de Oliveira do Hospital, melhor conservada
<3omquanto menos interessante nos detalhes do que a
de Balsemão.
O plano nas duas ó idêntico, mas o tamanho de
Louroza maior. Ha também outras diferenças impor-
tantes como, por exemplo, nas respectivas capelas-mó-
res. Uma completa a outra. Por ambas se pode fazer
ideia do estilo de construção usado na terra portu-
gueza anteriormente ao românico.
36
A disposição do corpo da igreja, em ambos os san-
tuários, encontra-se em momimentos espanhoes da^
mesma época, como seja em San Julian de Prados
(Santullano) que foi fundada, pareoe-me, por Afonso o
Casto, e cujo plano, até ao cruzeiro, é igual ao das
nossas duas igrejas, podendo bem considerar-se o tipo
perfeito da bazilica latina de 3 naves e 3 absides, de
planta quadrada ou rectangular com cobertura de ma-
deira. O mesmo se dá com S. Salvador de Priesca, de
3 naves e 3" arcos de leve ferradura em cada parede
divisória, a qual foi sagrada na era de DCCCCLVIII
(920).
Em Balsemão os arcos descançam directamente so-
bre os capiteis, para ali trazidos posteriormente e
adaptados, pois que os primitivos deviam correspon-
der ás bases que lá se vêem. Em Louroza os arcos de
volta de ferradura assentam em ábacos largos qu^, por
seu turno, se apriiam em capiteis e fustes cujos diâme-
tros se harmonizam perfeitamente.
Este facto esclarece o caso de Balsemão, já indica-
do pelo sr. Vasconcelos. Aos arcos deste santuário
foram tirados os silhares que faziam a curva inferior
da volta d© ferradura ; e os capiteis que havia substi-
tuídos pelos que lá estão hoje os quaes foram á certa
trazidos de alguma estação romana das visinhanças. (')
Em Balsemão, a comunicação entre o corpo do san-
tuário e a capela-mór faz-se por ura só arco, esse com
a volta de ferradura bem clara, mas alteado por lhe
terem metido de cada lado um novo silhar, o que deu
(') O mesmo facto se deu em Santa Comba de Bande. Os ca-
piteis da igreja foram levados para lá de umas termas roma-
nas, vizinhas.
87
lima forma extravagante ao conjunto. Pelo lado de
dentro conhece-se que não podia ter havido outra
passagem para o corpo da egreja. De facto, corre na
parede, á altura das impostas e partindo delas, um
tríplice cordão gravado, cuja origem vem de tão lon-
ge que já o encontrei nas lapides visigóticas de Mer-
tola, numa tampa sepulcral do templo de Endovelicò
e nas portadas das cividades minhotas e galegas.
E não é esta a uniua aproximação que se pôde fazer
«ntre a arte decorativa de Balsemão e a arte protois-
torica, visigoda e mesmo lusitana. Os sivasticas e as
rosetas sexifolias aparecem nas cividades, nas inscri-
ções luso-romanas, na arquitectura visigoda, asturia-
na e mosarabe, e até na românica.
Para exemplo das primeiras basta citar Briteiros,
Sabrôso e Monte Redondo ; para as segundas, as 4
stelas votivas de que já falei e muitas outras que o
Museu Etnológico possue. Para a arquitectura visigo-
da serve S- Pedro de Nave (Zamora) em que a meia
altura das paredes corre uma liuHa de gravuras na
pedra, em que se alternam os swasticas & as rosetas ;
para a asturiana, S.^» Cristina de Lena e a sua irmã
Santa Maria de Naranco (Oviedo) ; para a mosarabe o
Canecillo de San Miguel de la Cogolla de Suso i;Lo-
grôno) ; para a românica, por exemplo, os arcos do
portal de S. Pedro de Gailiganes, emGerona (rosetas),
ou os ábacos (como em Balsemão) de San Pablo dei
Campo, em Barcelona. (')
Esta barbara ornamentação, (de que Balsemão tem
tão deliciosos specimens) alcança tanta brutalidade e
(') Elementos de um trabalho em preparação. «A roseta sexi-
íolia como motivo ornamental popular».
•ÓS
rudeza no tímpano do pórtico de S. Fiz de Cangas
(Galiza), que é românico, que a gente qaasi duvida se
a pedra não seria trazida para lá dalguma rude «cita-
nia» dos arredores. Não ha duvida que todos estes
motivos ornamentaes, os de Balsemão e os espanhoes,
são, como diz Lampérez, «la turbia cristalizacion á
través los siglos de formas tradicionales.»
Infelizmente toda esta brilhante arte decorativa fal-
ta em Louroza.
Terminando. Louroza aparece frequentemente cita-
da em documentos. Nas Inquirições de Afonso III, era
que é inquirida juntamente com Villa Pouca; na Ta-
voada dos Foraes Novos da Comarca da Beira, em
que se diz que apezar de haver memoria de antigo,
particular, foral, a terra é do Bispo de Coimbra ; e nas
Memorias Parochiaes de 1758 (*), onde o parocho para
a distinguir da Louroza da comarca da Feira, lhe
chama Louroza da Serra da Estrella, titulo que ado-
pto para este estudo. Ha bastantes anos que esta
igreja de Louroza era conhecida e tida como antiga^
porque já numa corografia do districto de Coimbra
se diz : (^) «E' de fundação antiquissima esta povoação
e notável a sua igreja em estilo góticos. O auctor pelo
visto, só olhou para os arcos aguçados das sineiras . . .
(•) oMomoriab Parochiaes»-V-21-n.'' 147, pag. 1281.
(2) oCorogralia do Dist. de Coimbra» — Agostinho d'Andrade,
1896, pag. 145.
Monumentos medievais de Lamego
^ORTUGAL é um país em que os grandes monu-
fjfíi mentos são raros. Aqueles que a devoção e o
^^b fausto dos reis e ricomens levantaram, dos sé-
culos XI ao XV, pelos vales tranquilos e transbordantes
de água, levaram-nos na maior parte os séculos seguin-
tes, sorvidos na voragem das guerras e dos terremo-^
tos, ou transformados pelas riquezas da ludia e pelos
ouros e diamantes do Brasil. Por isso, e ao contrário do
que sucede nos países do centro da Europa, onde cada
igreja de comuna é um monumento a visitar, a nossa
primitiva arquitectura só excecionalmente se mani-
festa em edifícios grandiosos.
Se porém a sorte dos grandes monumentos os levou
a destruições totais ou a reconstruções desastradas, o
mesmo não aconteceu, felizmente, a muitas igrejinLas
humildes, conservadas intactas na sua pobresa e na da
freguesia que representam religiosamente, providen-
cialmente libertas de doadores, reformadores e brasi-
leiros ricos.
São numerosíssimas ainda, desfiando-se pelas ser-
ras e socalcos de Trás-os Montes, pelos outeiros e
vales idílicos do Minho, ou pelas agrestes chapadas
das Altas Beiras, fazendo presistir na paisagem e nos
povoados, com a negrura dos seus arcaboiços de pedra,
40
um pouco da rudeza dos tempos remotos em que os
ergueram. Inabaláveis, compactos, humildes na sua
rude e desataviada fábrica, indissoluvelmente ligados
à terra de que pouco parecem querer afastar se, ê^^ses
monumentos româuicos, da transição e do primeiro
gótico, revelam melhor do que quaisquer outros do-
cumentos o espírito e a vida dos séculos que os
viram surgir da terra.
Sobre os santuários primitivos do Minho escreveu
com profundo conhecimento e erudição o dr. Manuel
Monteiro, tendo o sr. Marques Abreu reproduzido
numerosos e interessantes aspectos de igrejas de todo
o Norte. Há, porém, tanto que fazer nesse campo, que
a tarefa pode dizer-se apenas iniciada.
Tendo descoberto ou visitado, numa zona da mar-
gem esquerda do Douro que tem por cabeça Lamego,
alguns edifícios arcaicos de bastante inteiêsse, julgo
de meu dever relaciona los desde já, como subsídio
para um trabalho de maior vulto que os descreva e
integre na história da nossa arquitetura.
Sem falar de Balsemão, distante meia légua da ci-
dade, e que o ilustre historiador e aruuiteto espanhol,
D. Vicente Lampere^: y Romea considera do século vii,
o que, apesar de opmião diversa do sr. Joaquim de
Vasconcelos, deve ter-se como verdadeiro, existem,
dentro de Lamego mesmo, os seguintes edifícios le-
vantados dos séculos XI a xin :
Torre da Sic. Esplendida construção do fira do
século XII, ó o que resta da catedral românica mais
tarde substituída por uma gótica e por fim pela que
lá se encontra ainda. A silliaria que a compõe está
toda siglada, e três das suas paredes são vasadas de
janelas de arco aguçado ou trilobulado.
Igreja de Santa Maria d'Almacave. Fundação da
mesma época. De antigo conserva: a porta principal,
de arco aguçado, com três arqui voltas e faixa axadre-
zada debruando a mais larga destas ; as duas por-
tas laterais, de verga recta aguentada em modilhões
voltados para a abertura ; e uma cruz talhada num
círculo e de braços vasados que assenta sobre a em-
pena da fachada.
Castelo (Tokkes Muralhas e Cisterna). No cas-
telo de Lamego, ainda perfeitamente delimitado pelas
muralhas primitivas, com as suas portas de entrada
(esta apertada entre dois cubelos) e de saída, bem
conservadas, e as suas torres, entre as quais a de Me-
nagem, um pouco arruinada mas erguendo-se ainda al-
tivamente no tope da coliua, encontra-se um conjunto
muito notável de construçães do século xiii. Um dos
monumentos mais interessantes dessa série ó, sem dú-
vida, a cisterna, porventura a melhor conservada do
país, longa uns vinte metros, larga metade, alta outro
tanto, toda de silharia retangular, unida, lavrada de
pico miúdo e siglada, abobadada e com a volta das
ogivas sustentada por cintas grossas que se estribam
em pilares da mesma espessura, o que tudo dá ao
depósito do água a feição de uma igreja da época.
Mosteiro de S. JoÀo de Tarouca. A primeira pe-
dra da igreja do mosteiro afirma-se que foi lançada
por Afonso Henriques á volta da sua correria de
Trancoso contra os Mouros. Pela inscrição que ain-
da se conserva iia frontaria — Fundata fuit ista Era
M. C. Lx. II ka/end. Jidij — conhece-se que as obras
começaram ou terminaram a 30 de Junho de 1152 ; e
por um outro letreiro que ainda no século XV)I se en-
contrava no templo, sabe-se também que o arquiteto
foi o mestre João Froilaz, de Tarouca : — Toannes Froy-
laci de larauca fecit hoc.
Embora houvessem sido vándaiicamente destruídos,
antes de 1910, vastos edifícios antigos do convento,
obras talvez do século xiii, ainda aí restam, das pri-
mitivas construções, uma extraordinária galeria cobrin-
do um ribeiro, muros, e a igreja que é ampla, de três
naves, de estrutura absolutamente românica, apesar
dos arcos aguçados das portas e das cintas das abo-
badas.
Igreja paroquial de Tarouca. Importante monu-
mento que descobri por acaso, pois atraídos pela fama
do mosteiro, nunca os viajantes se dirigem a Tarouca,
vila e cabeça de concelho. Esta igreja, do fim do sé-
culo xn, conserva o aspecto exterior primitivo, com a
porta lateral, magnifica e assente sobre um corpo sa-
liente, mais imponente que a da frente ; a empena das
sineiras, de arcos aguçados e sobre o lado direito, com
seu patim de serviço exterior, partindo do coro ; e a
linha dos cachorros multiformes, intacta. O interior,
modificado nos séculos posteriores, não corresponde
ao aspecto externo.
Mosteiro da Salzeda. Sagrou-se a igreja deste
Mosteiro no ano ue 1225 {MonarcJi. Lus. L. AY, p. 240
e ss.). O edifício primitivo, fundado por D. Tareja
Aíbnso, mulher de Egas Moniz, está mascarado pelas
obras realizadas no século xviii, revelando-se, porém,
ainda por um arco da nave lateral esquerda, e pela
silharia das paredes para o lado dos claustros, que
aparece toda em ordem e siglada. Era uma linda
igreja de três naves, maior e muito mais interessante
que a de S. João de Tarouca, a que infelizmente os
reformadores setecentistas íizeram perder o carácter
e a maírestade.
Igreja de Santa Maria de Cárquere. A uns quatro
quilómetros de Resende, na encosta da serra. Fundação
de D. Afonso Henriques (?), que por intercessão da Sr.^
de Cárquere se curou de um defeito nas pernas, mo-
léstia com que havia nascido. Da primitiva igreja resta
uma pequena quadra de silharia regular, cintada por uma
faixa de entrelaçado, em relevo. Numa das faces dessa
construção abre-se uma lirrda janela de volta redonda
que noutro lugar deste liyro descrevo e reproduzo.
Igreja de S. Martinho de Mouros. Fica a fregue-
sia, de que a velha e imponente igreja jie S. Martinho
é cabeça, na vertente esquerda da conca do Douro, a
umas quatro léguas de Lamego, sobre a estrada que
segue para Resende.
O templo é de traça e tipo desusado entre os monu-
mentos românicos que tenho estudado na região. Em
vez da carateristica empena das sineiras, com duas ou
três aberturas, alçada sobre a fachada ou sobre um
dos lados, possue este santuário uma espécie de torre
assente sobre a frente da construção, a meio da qual,
vasado de arcos gémeos e aguçados, se levanta um
paralelepípedo de cantaria que abriga os sinos.
44
Igkeja de Barro. Situada sobre a estrada de Resende,
a três léguas de Lamego e a uma de S. Martinho de
Mouros, porem mais chegada à corrente do Douro do
que esta última povoação. Interessante monumento
românico cujo ar de vetustez é somente perturbado
por uma torre moderna que encostaram ao edifício e
pela visinhança de umas casas de brasileiro rico, todas
berrantes de telha marselheza.
Igreja de Barcos. A freguezia de Barcos, perten-
cente ao concelho de Taboaço, dista desta vila uns
quatro quilómetros e fica situada sobre a cumiada dos
montes que formam o primeiro socalco da muralha es-
querda do vale do Douro. A igreja paroquial é um
interessante exemplar românico que conserva em
muito bom estado a sua porta principal de volta re-
donda e. as lateraes de arcos aguçados. A cachorrada
está completa, e todos os cantos ou silhares aparecem
siglados. Deve ter sido levantada esta egreja entre os
meados dos séculos xii e xiii.
Capela de Sabrôso. A uns três quilómetros de Bar-
cos, para poente, em lugar despovoado, nas faldas de
um cabeço pedregoso e regular, ergue-se esta capela
românica, porventura erguida pelos mesmo arquitéto
e canteiros que traçou e lavraram a paroquial de Bar-
cos. Conserva intacta a sua porta principal, muito sim-
ples, parte das paredes, e a cachorrada da capela-mór,
sendo a decoração dos modilhões idêntica àquela com
que deparamos na igreja da vila visinha. Parece me
uma construção do começo do século xiii.
Conserva ainda, no adro devastado, numerosas pedras
45
sepulcraes contemporâneas dos primeiros tempos da
fundação.
Igreja de Armamar. Desconhecida dos arqueólogos
e historiógrafos de arte, como algumas das anterior-
mente descritas, a igreja matriz de Armamar é um
belo edifício românico de três naves, magnificamente
conservado. As janelas, tanto da sua grande abside
semi-circular como dos dois absidiolos que a acolitam,
foram, porém, no século xvii transformadas em nichos,
hoje ocupados por três imagens de calcareo fino, muito
boas esculturas de começo do século xvi, que mete dó
ver expostas ás intempéries e aos estragos do rapazio.
A porta principal é de arco aguçado, com duas ar-
quivoltas simples, cujos ábacos e impostas são adorna-
dos de bolas. A cachorrada permanece intacta, cons-
tando a sua decoração de barris, rolos, cabeças de
javardo e esferas. Toda a silharia está siglada, sendo
muitas das siglas semelhantes ás do Castelo de Lamego
e Salzedas. Deve datar do começo do século xiir.
Existem ainda na mesma área de Lamego três mo-
nomentos arcaicos já plenamente góticos, posteriores,
portanto, aos que acabo de mencionar, e dos quais a
seu tempo me ocuparei. São eles :
A Capela de S Domingos de Queimada,
A Ponte e a Torre de Ucanha,
A Torre do antigo convento de Ferreirim.
Nossa Senhora de Cárquere
jE Resende a Cárquere, não chega a ser uma
légua.
Sobe se por íngremes ladeiras, calçadas de
granito em blocos almofadados e polidos pelo uso, até
á Feira Nova, onde se entra sob um docel de rama-
das. Daí para diante o caminho velho segue quási em
plano, pelo fundo de um vale, direito aos montes ane-
grados que trepam para as alturas cobertos de arvo-
redo. A que altitude se está já acima da corrente do
Douro ! E, comtudo, quanto ^ão tem que se escalar
ainda, para alcançar esses povoados serranos que se
alcandoram entre os rochedos e os castanheiros secu-
lares !
E manhã cedo, e a terra, empapada da água das
regas e do orvalho, rescende frescura. Como no Mi-
nho e na Campania, a vinha enleia-se no arvoredo
solto, abandonando braços que se inclinam e nos roçam
com doçura na passagem.
Destacado na serra como um promontório^ o morro
de Cárquere aparece, sobre a direita, as linhas indis-
tintas na vegetação envolvente.
G-alga-se a ponte de alto arco, que um painel devoto
sagra, na entrada, e eis-nos de novo a subir. De um
lado e outro: — paredes novas, com o granito, alvo
48
como mármore granuloso, a luzir ; casas semeadas ao
acaso das pousas da ladeira; cantilenas monótonas de
tear ou rumores abafados de malhadas ; castanheiros
pingando ouriços arreganhados, os beiços espinhosos
entre verde e leite ; alminhas em blocos isolados ;
águas claras — alma da serra — descendo em minúscu-
las cascatas, empoçando aqui, serpenteando ali, sal-
tando mais abaixo, aromatisando tudo de frescor ;
milhos tenrinhos — notreza do pobre— vagamente íiôr.
delisados. . Atraveissa-se um recanto adorável da ter-
ra portugueza.
Estamos no alto da encosta. — Um canastro erguido
sobre piões e mós de pedra — possivelmente verdadei-
ras mós romanas — , uma capelinha aberta, sob que se
abriga uma escultura barbara, e eis a torre de Cár-
quere, maciça e ameada, escurecida e tristonha, em
toda a sua rústica imponência de atalaia serrana.
Conforme narra Duarte Galvão na sua Ckronica del-
rey D. Affmso Henrigues, publicada em Lisboa em
1726 por Miguel Lopes Ferreira, o primeiro rei de
Portugal nasceu em Guimarães no ano de 1094 (1). O
filho de D. Teresa e do conde D. Henrique, ainda que
formoso e bem conformado, viera, porém, á luz com
as pernas pegadas dos joelhos para baixo. «Pegadas
las piernas desde las rodillas a los tovillos», esclarece
eruditamente Faria e Souza (Europa Portiig.y t. ir,
p. 32).
Egas Moniz, ricomem de Entre Douro e Minho,.
(') Outros escrevem que em 1]09.
40
levou o menino paia a sua companhia e consigo o
conservou durante largo tempo, pedindo sempre a
Deus, para seu amo, o «exercicio dos pés que a natu-
reza lhe negava». E aqui sucede a maravilha que
Duarte Galvão relata a páginas 3 e 5 da sua Crónica:
oE jazendo D. Éguas hua noyte dormindo, sendo já
ho menino de cinquo annos, lhe appareceo nossa Se-
nhora, e dice : D. Éguas dormes. Elle ha esta voz e
Kig. 13
A. torre c3o Níosteiro
(.I-^oto^ralia Uo aiilor)
visão acordando, respondeo : Senhora quem suss vás.
Ella dice : Eu sam ha Virgem Maria, que te mando q vas
ha hum tal lugar, dando-lhe logo hos sinaes delle, e
faze hi cavar^ e acharas hi huma Egreja que tui outro tempo
foy começada em meu nome., e hua Imagem minha ; faze
correger a Imagem^ e ha Egreja feita á miuha honra,' e
4
50
esto feyto farás, hi vigília poendo o Menino q crias sobre ho
Altar, e sabe que guarecera, e será sam de todo, e novi
menos te trabalha da hi avante de ho bê guardar^ e criar
como fazes ; porque meu filho quer por elle destroir muitos
imiguos da Fée.r>
Ora D. Egas seguiu á risca as ordens da Senhora,
achou a igreja e a imagem, e o menino Afonso guare-
ceo. . . «E por causa deste milagre foy depois feyto em
esta Egreja com muita devação ho Mosteiro de Cár-
quere...» ípag. 6 da Crónica).
Como Cárquere é uma grande estação arqueológica,
onde têem aparecido dezenas de lápides funerárias,
por sinal muito típicas, não admira que Egas Moniz
tivesse conhecimento de que no lugar existia algum edi-
fício antigo soterrado, e que á volta desse facto se
efabulasse toda a lenda.
Segundo a Chronica dos Cónegos Regrantes, igreja e
mosteiro foram fundados pelo conde D. Henrique, que
no próprio ano de 1099 começou as obras, em memo-
ria do milagre. O edifício conservou-se em poder dos
cónegos, aos quaes foi doado, até 1561. Em 1541,
D. João III, com grande zanga dos cónegos, segundo
o dá a entender Dom Frei Nicolau de S. Maria, ofere-
ceu o mosteiro ao Padre Simão Rodrigues, para lá
estabelecer os seus jesuítas, O astuto padre entendeu,
porém, que lhe convinha mais fícar ao pé da Corte, e
trocou Cárquere pelo Mosteiro de Santo Antão o Velho,
ao pé do Castelo de Lisboa. Continuou, portanto,
o convento em poder dos cónegos até 1561, época em
que o Cardeal D. Henrique cedeu as rendas aos refe-
ridos jesuítas. Tinha que ser.
Tudo isso passou. O velho mosteiro é hoje sede da
paroquia.
52
Em N.* S.* de Cárquere contamos, alem da torre
ducentista, a igreja, o couventinho, com dois andares,
flanqueado de um arco largo por onde se desce ao ter-
reiro em frente do templo, e o cemitério, murado e
quadrangular, delimitado, a nascente, por um anexo da
igreja, onde se encontram a sacristia e o pobre e frio
panteon dos senhores de Resende. Por detrás deste
anexo liça a residência paroquial. Sobre a esquerda
eleva-se brandamente o extremo do morro de Cárquere,
o alto chamado «das procissõest, foco principal do
antigo castro e da povoação romanizada que o conti-
nuou. A planta sumaria que levantei, evidencia a dis-
posição geral das construções.
A igreja, de uma só nave, é de fabrica manuelina^
no corpo, de construção gótica na capela-mór. O arco
da porta principal, bastante pobre ; o do cruzeiro, com
três arquivoltas ; o do côro^ largo e abatido ; a porta
lateral esquerda e a cachorrada polimorfica da face
visível, estão claramente mostrando o trabalho do pri-
meiro terço do século xvi. Na capela-mór, as nervuras
cruciaes da abobada, as colunas grosseiras que as
aguentara, os cachorros do friso exterior, e as duas
janelas geminadas, com seu óculo quadrilobado sob o
gume da ogiva, denunciam o fim do secula xiii ou co-
meço do XIV.
Metido na parede esquerda da capela mór fica um
tumulo monumental, impossível de examinar por causa
da armação de talha que o reveste. Parte da parede
desta banda foi rota para estabelecer passagem para
uma sacristia, de aspecto relativamente moderno.
Logo contigua a esta sacristia encontra-se a parte
51
mais antiga do edifício, uma camará retaugular, sim-
ples e acanhada, onde se alinham quatro arcas tumu-
lares de pedra, duas das quaes, as da esquerda, se en-
costam a arcadas abertas na espessura da parede.
Os sarcófagos, compridos mais de dois metros, tra-
pezoidaes, pesados, bárbaros, adornados nas tampas
com escudos oblongos, onde se deliniam cabras toscas,
são iguaes aos da entrada de S. João de Tarouca,
Santo André de Mafra, Sé de Lisboa, Vilarinho, Cerze-
delo, Pombeiro, todos dos séculos xiii e xiv.
Sobre o primeiro da direita ha um escudo deitado
ao correr da tampa, ornado com uma cabra entre duas
cunhas. Cravado na parede, por cima do segundo^ um
retangulo de pedra de 0,66 por 0,45, mostra a seguinte
inscrição, em gótico, e em seis linhas :
Aquy. jas. ho virtuoso sur — vasco m s de resende. do —
.còselho delrey don affon. — so. rejedor da sua justiça — na
comarqua^ dantre — duuro e minho.
Por cima da primeira arca do lado esquerdo, que
ostenta na tampa um escudo com duas cabras, está in-
crustada uma inscrição semelhante á anterior, onde
se lê :
Aqui/, jas. o snor. vasco — mis de resende (dtto 1) ne — to.
de. mar. tin. affons. q. — foy sor. de. toda. esta. terra. de.
resende.
Sobranceira á segunda arca desta banda fica a ins-
crição mais pequena :
Aquy jas — o senor yd — vas de — >vs' nde.
Dizem estas inscrições cravadas na parede e, decerto,
posteriores aos sarcófagos, respeito a estes e às pes-
soas que lá foram depositadas ?
Esta capela funerária dos senhores de Resende,
única parte que resta da fundação do Conde D. Hen-
55
rique (?) conserva exteriormente, da banda do nascente,
um resalto de pedra, lavrado de laçaria entrecruzada,
e uma janela de volta redonda, completa, que ó das
cousas verdadeiramente interessantes do românico,
entre nós, pelas suas dimensões exíguas e perfeita
conservação. Não vale a pena estar a procurar termos
de comparação para os lavores das arquivoltas e resalto
desta janela; em toda a Europa se encon-
trariam correspondências de forma e de-
coração. É, porém, bom deixar notado que
a porta da torre do Mosteiro de Travanca
possue uma arquivolta absolutamente
igual á lavrada com cabeças de monstros
que se examina na nossa fotografia. O sr.
Joaquim de Vasconcelos atribue Travanca _
ao século xi. Com o devido respeito, nare-
. t ^ -t Imagem, da.
ce-nos que não ncaria mal coloca-la no senhora cie
século XII. Cárquere, que o Conde D. Hen- ^árQuere,
... nr • "^ antiga»
rique (?) construiu e erigiu em Mosteiro, ,^ ^ . „
^ \ / o ' (Tamanho natural)
pode datar, o máximo, do primeiro terço do
século XII. E a sua torre é decerto um bocado posterior.
O que admira é como os ediâcios do Mosteiro tive-
ram de ser renovados logo nos séculos xiv e xvi.
Na igreja ha duas imagens de grande antiguidade:
Nossa Senhora «a Branca» e a Senhora de Cárquere.
A primeira. Nossa Senhora a Branca, ocíipa o altar
da esquerda, que se encosta a um dos ombros do cru-
zeiro. E uma imagem um pouco menor que o tamanho
natural, de face larga e grossa, com coroa fechada
pousada em cima da mantilha, um manto sobre os
liombros, preso, uo peito, por um firmai quadrilobado.
Com a mão direita segura o manto, com a esquerda o
menino, que brinca com a correia lavrada do cinto da
mãe. E uma escultura da escola de Coimbra, do século
XIV, e, provavelmente, feita na própria cidade, porque
é de pedra de Ançã. Possivelmente o nome de Branca
lhe veiu dessa circunstancia. As mulheres paridas, a
quem falta o leite, raspam um pouco da imagem, mis-
turam o pó em água, bebem-no, e obtêem fartura no
criar de seus filhos.
A imagem da Senhora de Cárquere de que vou fa-
lar, não é a que se encontra sobre o altar-mór. Guar-
da-se^ com recato, dentro de uma caixa de relíquias,
entre minúsculos agulheiros de Nossa Senhora, de prata
filigranada, dos séculos xii ou xiii. E uma oscultura-
sinha de marfim, com 0,029 de altura e 0,014 de base,
de trabalho muito antigo (').
A Senhora é representada com O menino assente
sobre o joelho esquerdo, de coroa encordoada e denti-
culada posta sobre uma mantilha curta, e de túnica e
manto. Com a mão direita um pouco erguida, abençoa,
como os Cristos dos evangeliarios e dos esmaltes. O
menino, coroado como a inãe, segura um livro na mão
esquerda, e abençoa também com a direita ; os seus
pés nús, muito rudes, estão virados na mesma direcção.
Nos vestuários ha manchas delidas de ouro e encar-
nado.
As faces das duas figuras, largas, ovaes, inexpres-
sivas, os gestos e posições, as roupagens sem rigidez,
mas também sem maleabilidade, indicam um trabalho
(') Alberto de Sousa fiel e graciosamente desenhou a figura
sobre uma fotografia do autor.
57
Kig. IT
Janeléi da. parte arcaica do edifício
(Fotogralia do autor)
de alta antiguidade. Nesta mesma posição está com-
posta, em mosaico, em Sauto Apolinário Novo de
Ravena, uma madona do século vi ('). Estaremos em
(^) A. Venturi, La Madone, Paris, pag. 3
58
presença de uma imagem visigótica, ou, já do periodo
românico ?
O respeito, o religioso cuidado com que eu lhe to-
quei, para a fotografar ! Oomo nos sentimos impressio-
nados sob as arcadas de uma igreja primitiva, peran-
te uma imagem vista e adorada por reis, ricomens e
povo de séculos remotos, que foi talvez levada como
talisman, no seu minúsculo relicário de prata, para o
meio das refregas contra os mouros, que correu decerto
as sete partidas do mundo, de um mundo, que nós não
conhecemos, nem conheceremos nunca !
O sol vae alto agora. Desce das encostas, por entre
os castanheiros copados, um som ritmado e alegre de
tambor. Acaso o senhor da terra manda fazer alardo
para algum fossado contra os mouros ? !
A paisagem é, ainda, a mesma que conheceram os
donatários de Resende. Os tempos, porêra, são outros.
Aquele som, a que uma voz estridente de rapariga se
une breve, ó o pregão da 7'óga serrana que vai para
as vindimas do Douro, entre descantes...
A Igreja de 5. lT7artinho de Mouros
igreja românica de S. Martinho de Mouros éo
mais imponente presbitério rural que, do seu
estilo, se ergue em terras da Beira Alta. Quer
pela lenda que envolve a sua fundação, atribuída aos
7n'jiiros, quer pelo seu tipo construtivo, diverso do usual-
mente adotado na região, nos periodos românico e
romano-gótico, esta igreja despertou, desde há muito, a
atenção dos arqueólogos e artistas, entre os quais
Filipe Simões foi o primeiro, salvo erro, a ocupar-se
dela, embora sumariamente, e o ultimo o sr. Marques
Abreu que lhe fotografou vários aspectos interessan-
tes, publicados depois na «Arte Românica».
Vizinho da freguezia a que ela serve de cabeça, há
dez anos que a conheço e admiro. Mas a monografia
especial que este monumento notável mereceria, não me
permitem as circunstancias escrevê-la, emquanto o
Estado não auxiliar a publicação de toda uma serie de
monumentos cujo conhecimento importa fundamental-
mente à historia da arte portuguesa. No estudo pre-
sente ficam, porem, embora como mero subsídio para
essa monografia, indicadas as principais e mais im-
portantes carateristicas do edifício.
A igreja é de uma só nave, de capela-mór mais es-
60
treita que o corpo, e conserva a sua estrutura e deco-
ração primitivas com pequenas alterações.
Diversamente do que acontece nos presbitérios ro-
mânicos do En*^re Douro e Minho e Beiras, a igreja de
S. Martinho de Mouros não apresenta a fachada rema-
tando em empena de duas aguas, ou em sineira vasada
de uma, de duas, ou três ventanas. A sua frontaria é
sobrepujada por uma das faces de um corpo rectangu-
lar, a modo de eirado de torre, que domina o primeiro
quarto da nave, e que se levanta apoiado em três das
faces sobre as paredes da frontaria e lateraes, e na
ultima sobre arcos cujas colunas e pilastras de susten-
tação partem do interior da igreja, disposição que
julgo única nas construções românicas portuguesas.
Esse corpo retangular que domina a frente do tem-
plo e lhe dá um aspecto quasi militar resalta um tanto
das paredes, apoiado numa serie de arquinhos, cujos
pés se estribam em cachorros com feitio de cabeças de
bovideos, perfeitas ou apenas esboçadas. Chama o
sr. Lamperez y Romea a este tipo de decoração — de
arquilhos lombardos — , e, efetivamente, o aspecto da
igreja toma, por causa deles, um sabor bem mais italiano
que galego ou provençal.
Encontram-se estes mesmos arquinhos na cornija da
igreja de Ferreira (concelho de Paços de Ferreira),
tanto no corpo como na sua abside redonda ; bem como
na fachada da primeira construção românica da igreja
de Paderue.
São 16 os arquilhos da fachada de S. Martinho, in-
cluindo o nono a contar da esquerda, na sua volta, o
arco terminal de uma fresta que risca a frente do
templo e que serve para dar luz á escaía apertada
que conduz ao eirado da torre.
61
A meio desta ultima construção levanta-se um novo
corpo quadrangular, largo 3,40, comprido 2,60, vasado
de arcos aguçados, espécie de alpendre de miradouro
que serve de torre dos sinos. Por cima do telhado
desta, a descoberto e desprotegido contra o tempo,
destaca-se um sino que ó percutido externamente com
Igreja cio S. Xltirtintio cie Xlouros
(FotOfíraí;;\ do autor)
um maço de ferro. Este sistema é adotado geralmente
lia- Itália, podendo a- junção do emprego dos arquilhos
lombardos com o modo de colocação dj sino, induzir-
nos a acreditar que o arquiteto da igreja se inspirou,
ao erigi-la, num modelo italiano.
G2
A porta principal é de arco aguçado, com quatro
arquivoltas, sendo a externa acompanhada por uma
faixa de ornato axadrezado cujos extremos vem assen-
tar nas impostas que partem dos ábacos e acompanham
toda a frontaria. A disposição é absohitamente idên-
tica á da porta principal da igreja de Almacave, em
Lamego, tanto na estrutura, como na decoração dos
capiteis.
Apeada, encostada á frontaria, do lado direito, en-
contra-se uma larga e grossa pedra cortada em ogiva
que serviu de timpano a este portal e apresenta uma
cruz gravada, a meio. Mede esta pedra: de altura,
2,0õ ; de largura, 0,20; de espessura 0,30.
A altura do gume do arco projetam-se, na fachada,
as pedras regulares de quatro cachorros em que se
apoiou a trave mestra do alpendre que, como em todas
as igrejas antigas, precedia a entrada, disposição que
em Portugal se perpetuou nas capelinhas dos séculos xvii
e xviii.
As portas lateraes primitivas desapareceram.
Embora o corpo da igreja não seja abobado, as pa-
redes estão reforçadas com botareus, havendo os dois
primeiros do balisamento sido encorporados na pró-
pria fachada a que dão um recorte cheio de graça e
leveza. Uma cornija estribada em modilhões desador-
nados acompanha a linha dos beiraes.
A captíla mór é retangulâr, simples. A igreja de
S. Martinho de Mouros, como quasi todos os pequenos
presbitérios românicos e da transição, do norte do país,
compõese de dois corpos retangulares, de desigual
largura, disposição que se encontra nos templos gale-
gos da mesma época, os quaes serviram certamente de
modelo, em muita cousa, aos nossos.
63
Quem entra na igreja depara logo com o fortíssimo
par de pilastras, que um coro moderno impede de dei-
xar seguir com a vista até aos três arcos que susten-
tam a torre. Desses arcos, o central, de volta redonda,
fica mais alto que o apainelado do teto da igreja,
abrindo-se os lateraes, levemente aguçados, bastante
mais abaixo do arco principal, sendo continuados por
abobadas de berço para o lado da parede da frontaria.
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Kig. 19
Parte sviperior da fachada da igreja de S. Xlartinho
(Kotografia do autor)
A importância desta interessante disposição, exigida
pelo peso formidável da torre, foi nitidamente com-
preendida pelo sr. Marques Abreu, que na «Arte
Românicai reproduziu uma boa fotografia desta parte
do interior.
A estes dois pilares correspondem, na muralha in-
terna da frontaria, duas colunas, providas de seus
64
capiteis ornados de volutas, sobre que devia assentar
nm coro que não passaria, como o de hoje, alem da
frente dos pilares, mas se acantonaria somente entre
eles e a parede. E assim se explica que do corpo dos
pilares, na parte voltada para a porta, se separem
duas colunas com seus capiteis ornamentados. Nestes
podemos vêr: no da esquerda, dois grandes touros
unidos por uma só cabeça ; e no da direita, dois homens
emergindo de folhagem, um sentado, com as mãos
postadas á altura do assento, e outro numa posição
ainda mais realista, acocorado e com as mãos agarra-
das á gola do capitel,
O arco do cruzeiro é também, como o da porta prin-
cipal, aguçado, e mostra, tanto interna como externa-
mente, lavores denteados e losangulares. Entre os
ornatos puramente românicos dos capiteis deste arco
aparecem monstros em acto de tragar figuras nuas,
que lhe pendem da boca penduradas pelas pernas,
motivo repetido da porta principal. Um friso de folhas
de acanto, motivo ornamental clássico que, ao lado
dos niotivos bizantinos e bárbaros, se empregou no
românico, corre por cima dos capiteis
Sobre este arco existo um óculo, emmoldurado em
toros, apresentando a abertura a forma de uma cruz
cujos braços terminam em novos oculosinhos de menor
diâmetro, forma trivial nos monumentos românicos e
do gótico primário.
Na planta que apresento, feita na escala de 1:100,
pode examinar-se a disposição atual das p.írtes com-
ponentes da igreja, que mede : no corpo, 17,80 de
comprimento e 8,50 de largo ; e na capela maior, 11,16
de longo, e 5,6õ de ancho, medidas tomadas no inte-
rior.
65
De obras posteriores à fundação do templo pouco
de notável se conserva no interior. Xa capela-mór
estão dois bons quadros em madeira, da primeira meta-
de do século XVI, representando, o melhor, aquela passa-
Kig. 20
Planta da igreja de S. Xlartinho de Mouros
Escala 1:100
(Desenho reduzido n ' ,4)
gem da vida do orago da igreja em que o santo corta
metade da sua capa para a dar a um mendigo. A figura
de S. Martinho, montado num belo ginete branco, re-
66
trata no aspeto geral, nas roupas, e no rosto, um tipo
de senhoi' quinhentista apresentado com esmero.
No ombro esquerdo da igreja, um metro afastado
do arco do cruzeiro, existe ainda, pintada sobre uma
camada de estuque que reveste a silharia, a figura de
um bispo abençoando, que dificilmente se consegue
examinar por se achar encostado, a esse espaço da
parede, um altar. Pelo que dificultosamente se lobriga,
o santo bispo, de mitra e manto, abençoa com a dex-
tra erguida. A figura espalma-se dentro de um caixi-
lho preto, sendo as cores empregadas na composição,
vermelha e amarelo sujo, muito grosseiras. De um e
outro lado da mitra episcopal, assente sobre uma ca-
beleira que cae até ao pescoço do personagem, está
escrito em letras góticas; sãn braz(?). Trata-se de uma
obra inferior do começo do século xvi, de um certo
interesse pela raridade das pinturas a fresco, desta
época, no nosso país.
fí Igreja de Barro
RGUE SE este interessante monumento românico
na margem esquerda do Douro, a umas trê3
léguas de Lamego, junto da estrada que con-
duz desta cidade a Resende.
A fachada da igreja é uma das mais curiosas e no-
táveis entre as dos templos coevos interamnenses e
beirões, e, como a de S. Martinho de Mouros, de tipo
desusado na região.
Aparece a frontaria repartida em quatro secções, se-
paradas por resaltos ou impostas que a acompanham a
toda a largura, correndo a primeira dessas molduras
pela altura dos ábacos dos capiteis da porta princi-
pal ; a segunda por cima do gume do arco aguçado do
portal ; a terceira na direcção dos capiteis da arcatura
ou arcada cega que se cava na muralha sobre a entrada ;
e a quarta entre a última mencionada e a linha de
águas da empena.
O portal maior, ó, como todas as portas dos tem-
plos rcmâuicos, uma forte e bela construção em que
a abertura, emmoldurada de uma série de arquivoltas
de arcos aguçados, se vai tornando mais larga á me-
dida que se aproxima da face da muralha. Mas nem
por os arcos aparecerem aguçados os poderemos con-
68
siderar ogivais. O ncme de ogival aplica-se a um sis-
tema construtivo e não a uma forma de arco mais ou
menos subido. Em Espanha encontra-se este tipo de
arcos desde o começo do século xii (Santa Maria de
Tarrasa — 1122 e Catedral de Lugo — 1129), em edi-
fícios do mais puro românico ; e por toda a Península
foram empregadas conjuntamente as duas formas de
arco, aguçado e de pleno cintro, até ao meado da
século XIII.
A parte superior do portal da igreja de Barro com-
põe-se de uma série de arcos em retirada, ou abocina-
àos^ que assentam em colunas de fuste cilíndrico, en-
costadas á parede, correspondendo a cada coluna dois
arcos de esquina em fcóro. Mas, como acontece na
maioria dos edifícios do mesmo género, estas colunas
não aguentam de facto as arquivoltas, recaindo todo
o peso sobre os ábacos cravados no massame do muro.
O tímpano da porta, desprovido de ornatos em re-
levo, è embelezado por uma cruz vazada no granito.
Esta cruz, porventura o melhor exemplar no género,
entre as igrejas coevas, do norte, deve, indubitavel-
mente considerar-se superioras cruzes abertas nos tím-
panos da porta lateral da Sé de Braga e nos dos por-
tais dos rústicos presbitérios de Fonte Arcada (La-
nhoso), Unhão (Felgueiras) e Aruozo, que formam
ura grupo especial dentro da colecção de tímpanos his-
toriados da% igrejas do norte, cujos melhores exem-
plares se podem admirar em Rates, Rio Máu e Bra-
vães.
E a cruzinha de braços curvos, desenhada sobre o
centro da cruz maior, é igual aos símbolos do mesmo
género que se colocavam sobre as empenas da fronta-
ria, do arco do cruzeiro e da cabeça da capela maior
f>a
dos templos dos séculos xii e xiii (p. e. iias igrejas de
Ferreira, S.^ da Ourada, Bravães, Cerzedelo, etc),
A rosácea da frontaria, muito simples, reduzida a
Kig. íil
F^rontaria da igroja de Barro
(Kotofjrafia do autor em IDlõ)
tim circulo rodeado de oito óculos mais pequenos,
aparece, neste monumento, envolvida por uma arcada
cega, de volta redonda, com as arquivoltas de aresta
70
em toro, as quaes assentam em dois pares de colunas
semelhantes, na disposição e decoração, ás da porta
principal. Encontram-se aqui mais uma vez reunidos
neste monumento cuja fundação devemos atribuir ao
fim do século xii, ou quando muito, à primeira meta-
de do século XIII, o arco apuntado e o do pleno cintro.
Este dispositivo do janelão sobre a porta principal
traz á mente a fachada da Sé de Coimbra. Alem desta
aproximação apenas encontro entre os monumentos da
península para tentar uma comparação, o trecho da
grande janela ornamentada que se abre sobre a porta
da fachada norte da colegiada de Toro. Seria o arqui-
teto de Barro um espanhol, como o de S. Martinho
fora, possivelmente, um italiano ?
O lado esquerdo da igreja, com os seus 24 cachor-
ros multiformes da cornija, as 6 misulas maiores, a
meia altura, onde assentou a trave mestra de um al-
pendre desaparecido, e uma porta de arco aguçado,
debruado de uma faixa de ornato axadrezado, pôde
considerar-se intacta. Entre os cachorros da capela-mór
divisam-se uma cabeça de homem e um focinho tosco
de javardo : entre os do corpo da igreja, pássaros, um
gnomo acocorado trincando qualquer cousa informe, e
desenhos vários.
A porta tem o timpano liso assente sobre dois estri-
bos semelhantes aos que encontramos nas entradas
lateraes de Almacave, sendo porém aqui esses estri-
bos ornamentados. Do mesmo tipo os encontramos na
igreja de San Isidro de Leon, onde os lavraram de
cabeças de animais de bocas hiantes, na Puerta de
Platerias da catedral de Compostela, na porta de San-
ta Maria La Real, em Siguenza (Navarra), etc.
Qianto á faixa de xadrez, essa é também vulgar em
71
Espanha e frequente entre nós, mostrando três igrejas
desta região de Lamego— S. Martinho de Mouros, Al-
macave, e Barro — as suas portadas decoradas com
Kig. 22
Porta principal da igreja de Barro
(P^otografia do autor em lOlG)
ela. Folheando a «Arte Românica» de Marques Abreu,
muitos exemplos se poderão colher ainda, e de fora de
Portugal poderemos citar, escolhidos entre mil, a porta
72
de San Quirce, de Burgos, o claustro de São Domin-
gos de Silos, (Castela), o portal de Charlieu (Loire),
etc, aparecendo a faixa em todos estes monumentos,
ora a três, ora a quatro, a cinco ou seis quadrados de
largo. **
No lado direito da igreja são apenas visiveis 17 ca-
chorros, escondidos ou destruidos como foram os ou-
tros pelas dependências que se encostaram a este lado
do templo, sendo o principal desses adminiculos acres-
centados, a inestética torre moderna cujo ultimo res-
tauro data de 1895.
O interior do corpo da igreja de Barro, pobre e sim-
ples, é alumiado por duas janelas de arcos aguçados,
com 1,18 de largo de abertura interna, mas que aflo-
ram no exterior apenas como frestas altas e muito es-
treitas. Duas toscas pias de batisar ocupam os ângu-
los inferiores do retangulo, sendo os superiores escon-
didos pela armação entalhada de dois altares setecen-
tist^,s.
O. arco que dá passagem para a capela-mór é largo,
aguçado no alto, e os seus pés incurvam levemente
ao assentarem na imposta que remata os capiteis. A
capela-mór é abobada com uma abobada de berço for-
talecida por duas cintas fortes, a primeira assente em
colunas iguaes ás do arco do cruzeiro, e a ultima es-
tribada em misulas. As colunas assentam em socos,
altos 1,24 a 1,27, e compõem-se de base larga e alas-
trada, com ornatos nos ângulos, simplificação das
clássicas garras, fuste cilíndrico e capiteis ornados,
sobrepujados por uma imposta ou cimaJha ornada de
folhagem estilisada. Dos quatro capiteis, o primeiro
do lado do epistola está lavrado com três figuras em
relevo : a primeira de um homem de túnica curta ou
73
saio, que segura na mão direita uma espécie de escudo
oval 6 levanta na esquerda um machado ou uma fun-
da : a segunda, um outro homem empunhando uma
lança e levando á boca uma buzina de corno ; e a ul-
tima um quadrúpede de pernas altas e grande cabe-
çôrra, possivelmente representando um bovideo. No
capitel fronteiro há três animaes da
mesma espécie, dispostos em fila.
Os restantes capiteis de cinta me-
dia são envolvidos por folhagem de
folha esguia e arestas vivas. A im-
posta que corre da cinta a cinta é
simples e desadornada.
As siglas marcadas sobre a silha-
ria pertencem quasi todas ao alfabeto
oncial usado ao tempo.
Dentre as igrejas que estudei ou
visitei nos arredores de Lamego, a
de Barro ó aquela em que encontrei
maior copia de esculturas e inscultu-
ras. E na frontaria, além dos lavores
antigos dos capiteis e das cabeças
humanas das 3 misulas, vemos ain-
da, aos lados da porta principal,
duas cruzes de Malta evidentemente
posteriores à construção da igreja,
que desde o século xvi foi uma co-
menda daquela Ordem militar.
Na ocasião de uma das minhas visitas à igreja, em
1916, estava o interior pejado com as armações dos
andores que haviam figurado ua festa da freguesia,
realisada a 15 de agosto. Entre esses andores figurava
um barco rabelo^ perfeitíssimo, pintado de azul e ver-
Plcinta da itíreja
cie Barrô
a 1:100
(reduzido a ', i)
74
melho, em cuja ponte se erguia o tronosinho da Se-
nhora da Boa- Viagem, a pequenina protetora dos ma-
rinheiros da freguesia que, dia a dia, arriscam a vida
nos pontos e cachões do Douro, que corre lá em baixo
entre penedias selvagens. A Senhora é trazida para a
igreja na ocasião da festa, da alta rocha onde se cava
o seu nicho, olhado com religiosa piedade e esperança
pela gente de Barqueiros, Ermida, Porto Manso e
Frende, gente rude que compõe a tripulação da maior
parte dos barcos que deslisam ainda ou se empinam
sobre as aguas turbulentas do Douro.
Algumas medidas tomadas na igreja :
Comprimento do corpo, internamente, 14.'"; largura,
6,9õ ; comp. da capela-mór, 11,70; largura, 5,lõ. Lar-
gura externa da porta principal, 3,91 ; largura interna,
1,85; altura até ao tímpano, 2,70. Largura da porta
lateral esquerda, 2,40; largura interna, 1,77; altura
até às impostas, 2,46.
A Igreja paroquial de Barcos
(TABOAÇO)
]evanta-se o monumento na praça principal da
antiga vila de Barcos, conservando quasi in-
tacta a sua linha primitiva, exceto do lado
esquerdo, acrescentado com uma sacristia banal e de
péssimo estilo, e na cabeceira, levemente restaurada no
século xviii.
Compõe-se de um corpo retangular e de uma capela
maior, desiguaes na largura e com uma só nave. A.
comunicação com o exterior faz-se por três portaes de
arcos lavrados, o principal, na fachada, de pleno cintro,
os lateraes mais simples e de arcos aguçados.
A porta principal é coberta por uma armação de três
arquivoltas, a primeira das quaes adornada de bolas
dispostas sobre a aresta chanfrada, a segunda toreada,
e a interior cortada de riscos paralelos, partindo todas
de ábacos trepezoidaes que se cravam no massame da
muralha. Dois pares de colunas com seus capiteis la-
vrados, vendo-se no primeiro da esquerda uma cara
que apanha todo o capitel, fingem aguentar esses ába-
cos também adornados de quadrifolios soltos, trevos
estilisados, etc, á maneira dos que vemos na porta
românica já citada em estudo anterior, de S. Pablo de
Barcelona.
76
As outras portas, as lateraes, uma das quaes re-
produzida artisticamente na capa deste livro, são mais
singelas e mostram as arquivoltas adornadas de cabe-
ças de cravos, e de bolas.
A cornija da igreja ó sustentada por uma série de
Porta latorfil direita da igreja de Btireos
(F()U)(írafia do autor)
modilliões uniformes e desadornados, no género dos
da igreja de Santa Clara de Santarém, posteriores á
construção românica, vendo-se sobre um deles, do lado
do Evangelho, em letras góticas, as iniciaes a \), pos-
sivelmente pertencentes ao mestre da obra, um qual-
quer Afonso Vicente do século xiv.
77
Dos cachorros primitivos ainda se vêem alguns na
parede da capela-mór a que se encostou a sacristia.
Um deles é lavrado com uma cruz em relevo, outro
Fig. 25
Portex lateral esntierciti da igreja c3e Barcos
(Fotografia do autor)
com dois rolos atravessados, e um terceiro com duas
mãos que seguram um phcdus numa posição por demais
realista.
78
Encostado a um dos contrafortes ou gigantes deste
mesmo lado do Evangelho encontra-se uma pequena
arca tumular, cavada interiormente com o feitio do
corpo, e tapada com uma lage, disposta á maneira do
tumulo do conde D. Sisenando, na Sé de Coimbra.
Não faltam na frontaria os cachorros de suspensão
do alpendre e, sobre a empena, as sineiras aguçadas.
Do lado direito da igreja, perto da porta lateral, le-
vanta-se um ediculo de granito sobrepujado pela parte
superior de um tosco calvário do século xiv ou xv,
para ali trazido de uma capela destruída nos arre-
dores. •
Toda a silharia regular da igreja aparece fortemente
riscada de siglas, quasi todas retilineas e pouco va-
riadas.
O interior do corpo da igreja é simples, salientan-
do-se apenas entre as peças que o ocupam um púlpito
de madeira do Brazil, chapeado de bronzes recortados,
no género do da igreja de Ferreirim, possivelmente
obra do celebre ensambladcr lamecence do principio
do século xviii, Manuel de Sousa.
A capela maior, coberta de grosso apainelado de
castanho, com vinte e quatro painéis pintados, salpicado
de florões, está, até certa altura, forrada de azulejo
de ros8 e laçaria, a azul. Este apainelado rico cobria
também o corpo da igreja, tendo sido arrancado mo-
dernamente numa qualquer restauração promovida por
bemfeitores locaes.
O arco do cruzeiro, pintado de grotescos, está data-
do de 1726.
Em poder do abade da freguezia, P.^ Araújo Vilela,
pessoa muito culta e que muito se interessa pela sua
igreja, vi uma linda chapa de marfim lavrada com a
79
Anunciação, obra do fim do século xv, que devido á
sua gentileza fotografei e posso reproduzir junta com
este estudo. Figurou na Exposição de Arte Ornamen-
tal de Lisboa, em 1882.
Kig. 26
Placa de marfim representando a n Anunciação»
(Fotografia do autor)
Dada a raridade dos trabalhos em marfim deste
género e desta época, entre nós, a placasinha tem o
seu lugar naturalmente indicado nas coleções do Mu-
seu Nacional de Arte Antiga.
fl capela de S^bròso (Barcos)
rjjkQ nieia légua de Barcos, para poente, nas fal-
^ das de um mamelão pedregoso e selvático, de
cujo cômoro se avista largo trato da margem
esquerda do Douro e parte da bacia do Tedo, levan-
ta-se, isolada e tristonha, a capela de Sabrôso, consi-
derada pelos povos das vizinhanças como a mais
antiga da região.
Kig. 27
Vista lateral da capela de Sabrôso
(Fotografia do autor)
82
É exagerada, evidentemente, a tradição popular,
pois que o templo não passa de uma construção con-
temporânea da igreja de Barcos, ou um pouco poste-
rior a ela.
O seu isolamento, porém, e as pedras lavradas que
ficaram no seu adro devastado, conduziram, natural-
mente, a essa tradição de vetustez.
Não encontrei, nem mesmo procurei, por não ser
esse agora o meu intento, documentos que dissessem
respeito á capela e nos elucidassem acerca da sua ori-
gem. Parece-me, porém, que aquele abade de Saboroso,
D. Pedro Pires de Távora, cónego da Sé de Lamego,
de que lia noticia em 1300 (^), tomaria o seu titulo
eclesiástico da abadia de que era cabeça o santuário
de que me ocupo. A época em que aparece este abade,
o instituidor da capela de S. Pedro, junto á igreja de
S. João de Távora (na região), condiz perfeitamente
com a data que atribuo a Sabroso, o século xiii.
Compõe-se o monumento de um corpo retangular e
de uma capela-mór da mesma traça, apresentando a
frontaria o mesmo aspecto de muitos santuários trans-
montanos e leoneses, com a sua porta larga, de arco
subido, e a empena mais alta que o telhado, sobre a
qual se ergue, ao meio, o campanário, uma espécie de
ediculo com sineira única.
Aos lados do arco duas misulas desadornadas fica-
ram mostrando os pontos de apoio do alpendre que
cobriu, primitivamente, a porta principal.
O friso do corpo da igreja é liso e não fortalecido
por modilhões, que só aparecem, em número de 19,
(*) «Historia Eclesiástica da Cidade e Bispado de Lamego» por
Joaquim de Azevedo — Porto 1877, a p. 269.
83
de um e outro lado na cornija da capela maior. Como
os da igreja de Barcos, estes cachorros são ornamen-
tados de rolos, caras e bolas, isoladas ou aos pares.
No interior, frio e vasio, apenas há que mencionar
um retábulo com painéis pintados sobre madeira, do
Fig. 28
Tampa de sarcófago, pedras ttamulares e cabeceiras
de sepultura no adro da capela de Sabrôso
(Fotografia do autor)
século XVII, infelizmente sem grande valor artístico, e
algumas pedras tumulares, trapezoidaes, lavradas, de
bastante interesse arqueológico. Em duas dessas lages
veem-se insculpidas cruzes de braços quasi triangula-
res, inscritas num circulo, que uma vara terminando
84
em triangulo parece sustentar, como haste. Trata-se
em meu parecer, de insígnias abaciaes, no género da&
que encontrei gravadas sobre uma cabeceira de sepul-
tura discoide, de Sousel (').
No adro ficaram também numerosas pedras lavra-
das pertencentes a um cemitério que se extendia em
frente e dos lados da capela. Essas pedras podemos
reparti-las em três categorias, da seguinte maneira :
Pedras sepulcrais do interior e do tidro
da capela de Sahrôso
l.*^ — Uma tampa de sarcófago, trapezoidal, com o
dorso em dois planos, lavrada de cada banda com
meios círculos divergentes, cavados na pedra (Fig. 28).
2." — Varias lages retangulares esculpidas de cruzes
simples e de outras do tipo das usadas nos monumen-
tos românicos e anteriores.
(') «Terra Portuguesa» n/" 25 26.
85
3.°— Um certo número de cabeceiras de sepultura,
discoides, sustentadas ou não por um pedestal, e la-
vradas com cruzes numa das faces.
Nas figuras 28 e 29 encontram-se fotografados ou de-
senhados exemplares de todos os tipos mencionados,
tendo o disco que se divisa na figura 28, colado sobre
a estela da cabeceira da tampa de sarcófago, sido colo-
cado ali pela gente dos arredores que arranjou as pe-
dras dispersas num grupo armado a seu rude gosto.
Numa das pedras, hoje deitada sobre o murosinho
■de resguardo do pequeno adro, em frente da porta
principal, vi o desenho de um machado de guerra ou de
oficio, com a parte destinada á preensão dos dedos
nitidamente indicada.
Todas estas rudes esculturas pertencem, evidente-
mente aos primeiros tempos posteriores á fundarão
da capela — os séculos xiii e xiv.
Cabeceiras de sepultura medievais
^^^^ESDE tempos remotos que o homem, para come-
HJk^J morar o passamento de outro Lomem, notá-
™Ji^Jiã vel por seus feitos e ações, ou caro ao cora-
ção dos agregados familiares, fixou em materiais de
duração as figuras dos desaparecidos ou os adornos,
armas e instrumentos indicativos da sua profissão ou
dignidade, colocando os perto do local da jazida, como
uma religiosa, perene e saudosa homenagem. E este
costume chegou até nós, atravez de mil transformações.
A gravura do homem nú, aurignacense, que dispara
o arco no abrigo de Laussel (I)ordogne)^ é talvez a
primeira representação funerária em que figura o rei
da creação, nas suas funções nobilíssimas e primaciais
de caçador. Dessa época em deante não rareiam os
documentos. Entre os neolíticos, colocavam-se nas se-
pulturas as armas de pedra, indicando o homem, as
mós braçaes de granito ou conglomerados, denunciando
a mulher. Na idade do bronze, as cistas sepulcrais
cobriam-se com lages insculturadas de armas de guer-
reiros (Museus de Beja e Etnológico). As esteias fune-
rárias etruscas, da idade do ferro, com correspondên-
cias na arqueologia ibérica, mostram-nos os comba-
tentes armados, ou as suas armas dispostas isolada'
mente.
Até aqui só o guerreiro era digno de comemoração
monumental. Com os romanos, surge, porém, nas es-
teias, a revelação da importância dos ofícios da paz,
ao lado da das artes da guerra. Aparecem os instru-
F^ig. 30
Cabeceiras de sepultura dos VTusetAS de Évora
e LisLioa
mentos de oficio. As lapides reproduzem, em relevo,
as ferramentas de que o morto se serviu em vida : —
uma enxó, como numa estela do Cairo ; toda a ferra-
menta de marceneiro, como sobre a pedra tumular de
um tignarius de Autun (Fig. 32 ('). No cipo de L. Sta-
torio Bathylo, aparecem, no fundo, um fio de prumo e
um compasso (^). No de um outro marceneiro grego,
lactar ius (fabricante de camas), vemos a enxó, o com-
passo, o esquadro (Fig. 33) (^). Já em tempos cristãos.
Fig. 31
Cabeceiras de sepulturí» de LisUoa, Beja e CoiniUra
89
sobre o sarcófago de um arquiteto osteutam-se todos
os instrumentos indispensáveis nessa arte (*).
Séculos caídos, generali-
sam-se com a mesma inten-
ção comemorativa, as cabe-
ceiras de sepultura, circula-
res como as hóstias, destina-
das a sagrar as campas dos
adros e dos cemitérios rústi-
cos, anteriores ás inhumações
nos templos. São esses do-
cumentos, interessantíssimos
j sob o ponto de vista arqueo-
lógico e etnográfico, que cons-
tituem o assunto deste estu-
do. Não é sem razão que se
diz que, estudando as sepulturas dos povos desapare-
cidos, se pode fazer a sua historia. . .
Cipo do " tigiiíiriíis,,
Encontram-se estas cabeceira de sepultura, com
grande frequência, junto das velhas igrejas. Raro será
que não deparemos com algumas nos pavimentos ou
nos adros dos templos românicos, góticos e manueli-
nos, em especial das nossas províncias do centro e
sul. Os museus, centrais ou regionais, de Lisboa
(Carmo e Etnológico), Santarém, Évora, Beja, Coimbra,
Figueira da Foz — guardam também grande porção
delas. Há mesmo lugares onde as cabeceiras continuam
(i) Dict. des Antiq., de Saglio, letra T. p. 335 ; (2) R. Accade-
inia dei Lincei, 1896, p. i56 ; (3) Dict. des Antiq , de Saglio, letra
R. p. 89S ; (4) M. Didron, Iconographie Chr., Paris, 1S48, p. 340.
90
a sua religiosa função multisecular. Vi-as, não há
muito, erguidas sobre campas dos cemitérios de S.
João das Lampas e de Santa Iria (termo de Lisboa).
A que época devemos atribui-las ? Sem duvida aos
tempos medievaes posteriores ao século x. O seu uso
prolongou-se, depois, até ao século xviii.
A cruz dos n/* 1 da fig. 30, e'2
da fig. 31, não tem a forma de cruz
de Cristo, como erroneamente escre-
veu Leite de Vasconcelos (Arch.
Port., v. I, p. 280), mas sim a da
cruz que aparece na arte cristã da
antiguidade e, a seguir, nos periodos
visigótico (lapides de Mertola e de
Beja) e românico. São deste tipo as
cruzes que encimam ainda os telha-
dos de algumas igrejas românicas do
norte (Nossa Senhora da Azinheira,
Chaves, Cerzedelo, etc.) A cruz do
n.° 3 da fig. 30 (Museu de Évora)
Kig. 33
Cipo
'leotarius,.
pertence evidentemente ao século xv.
No Museu do Carmo existe uma cabeceira, que tem
lavrada, duma banda, uma combinação de dois trian.
gulos (não o sino saimão) e, da outra, uma cruz, que
não pode deixar de ter sido gravada no século xvii.
Como se vê, do simples exame da forma do sinal
sagrado do cristão se podem tirar conclusões acerca
da sua cronologia.
E possivel que, posteriormente ao século xvii, se
lavrassem ainda cabeceiras de sepultura deste género.
Devemos, porém, considera-las como prolongamentos
etnográficos de costumes perdidos, sobre que não vale
a pena insistir.
91
Ao problema da atribuição de época a estas pedras
funerárias, deve ligar-se o da cronologia das sepultu-
Kig. 3-4
Do Xlviseu de Santarém
ras com o feitio do corpo humano, abertas em rocha^
sobre as quais ainda nenhum arqueólogo se quiz pro-
Kig, 33
Do Nluseu. de Santarém
(Reverso)
92
nunciar definitivamente. Filipe Simões, certamente le-
vado pela semelhança que existe entre essas sepultu-
ras 6 os sarcófagos fenícios (Cadiz) e egípcios, julgou-
as pré-romanas. Leite de Vasconcelos, fundando-se em
que uma sepultura de Zambulheira (Moncorvo) tinha
escrito no fundo vivi, chega, por deduções filológicas,
a considera-las romanas, cristãs (1). Martins Sarmento,
aproximando-se mais da verdade, escreveu numa carta
(Arch. Port., -v. VI, p. 46) que, em «sua opinião, as
sepulturas em rocha já pertencem ao periodo post-ro-
mano». De resto, esteve quasi a achar a verdadeira
solução do caso, quando se referiu á sepultura de Al-
pendurada (Arch. Port., v. VI, p. 191).
Uma série de circunstancias, dignas de ponderação,
leva-me a poder afirmar, porém, que estas sepulturas
são pura e simplesmente medievaes, e, em grande,
parte, posteriores ao século x. Fundome para este as-
serto :
1.° — Na visinhança de templos medievaes de cemi-
térios de sepulturas antropomórficas.
2.'^ — Na existência de sarcófagos com a mesma for-
ma, em edificíos românicos e góticos (claustros das
Sés de Coimbra e Lisboa, etc).
3.° — Na existência de sepulturas abertas na rocha
a cuja cabeceiras ou pés existem cavidades oblongas,
evidentemente destinadas a receber os espigões das
pedras ornamentaes de que me ocupo (2).
(i) Arch. Port., v. Xí, p. Sjo.
{■i) Num cabeço sobranceiro a Povos (Vila Franca), existe ao
lado da capela gótica do Senhor da Boa Morte, um vasto cemi-
tério de sepulturas abertas na rocha, que foi estudado por Ferra/
de Macedo e por ele atribuído, indevidamente, á época romana.
94
Tais cabeceiras, que Gabriel Pereira classificou co-
mo do século XV, têem um valor etnográfico incalculá-
vel, pois que nos aparecem ali os objetos de uso agri-
cola ou domestico, desenhados com fidelidade, embora
rudemente, tal como se usavam há quatro ou cinco
séculos.
A propósito das cabeceiras adornadas com alfaias
agricolas, surge-nos o problema da continuidade de
algumas dessas alfaias no uso comum hodierno.
Como se nota nas figuras 34 e 37, entre as peças que
faziam parte do trem agrícola do lavrador, contam-se
os machados, os maços e o cesto de semear. Estes três
objétos já hoje raramente se encontram reunidos em
qualquer das nossas províncias. O maço usam-no prin-
cipalmente os lavradores do Minho, com o cabo enfia-
do num buraco do timão do arado, perto do pescaz. O
machado, não há junta de bois do oriente de Traz-os-
Montes, desde Moncorvo a Viíihaes, que o não leve
cravado na canteira ou gata de ferro, do reverso do
jugo. E este mesmo machado, deve ser o representado
sobre uma das pedras do adro da capela de Sabrôso
(Barcos), atrás mencionada (Fig. 28). O cesto dé se-
mear aparece com uma certa frequência no Entre
Douro e Minho, tanto na ribeira^ como na serra. Na
feira de S. Bartolomeu, em Penafiel, vi, á venda, gran-
de porção de cestas de semear, de cortiça, feitas na fre-
guezia de Raimonde.
O sistema de semear com cesta eucontra-se entre os
Aos pés de muitas das sepulturas que aindam perduram, divisam-
se as tais cavidades destinadas a segurar as pedras das cabecei-
ras. No cabeço, que está rodeado por uma muralha igualmente
medieval, tçem aparecido moedas dos séculos xii e xiii.
95
romanos (fig. 3S), ao lado do outro sistema de semear
com saco (Dict. des Antiq., de Saglio, palavra Ihis,
pag. 923À O aparecimento de cestas nas cabeceiras de
sepultura indica que o sistema adótado, ao tempo, no
país, ou, pelo menos, na região ribatejana — a fregue-
zia de X. S. do O' da Olaia pertence ao concelho de
Torres Novas — era o da semeadura à cesta. Nas mi-
nhas excursões por Traz-os-Montes não raro ouvi di-
zer que, antigamente, se sementavam sempre com ces-
ta o centeio, o trigo, etc. Agora, para o grão não
cair, pelos intersticios dos vimes, servem-se de latos ou
de sacos.
Se grandíssima parte das pedras de cabeceira apre-
sentam, em ambas as faces,
gravadas apenas as cruzes,
as rosetas, os suasticas e os
sino-saimões — tudo sinaes
de carater sagrado e de
remota ascendência — , mui.
tas outras aparecem-nos de-
coradas com representações
de utensílios e ferramentas
indicativas do sexo ou ocu-
pação dos inhumados. As-
sim, surgem, no reverso das
pedras, as juntas de bois,
os arados, as tesouras, os
fusos e as rocas.
Excécionalmente, vi, em Sousel, uma cabeceira gra-
vada com um cálix românico e duas cruzes da mesma
Kig. 3S
Semeador romano
96
época (Fig. 40), que estão indicando claramente a pro-
fissão eclesiástica do finado.
No museu de Beja há duas pedras com tesouras
abertas, denunciando o alfaiate ; no de Évora, uma
junta de bois, gravada no reverso da cabeceira n.° B
da fig. 30. No Museu de Santarém (1) existe a série
mais interessante que se conhece em Portugal. Uma
das cabeceiras (fig. 34) mostra, de uma banda, a can-
ga— a mesma canga hoje usada na parte oriental do
país — , a grade, e o timão que arrasta essa grade, pro-
vido da respetiva chavelha; no reverso (Fig. 35), apare-
cem o arado, ligado à canga, a aguilhada, um escopro,
a machada, o maço, um saco de cereal e um cesto para
a semeadura. Noutra (fig. 37), é o próprio lavrador,
vestido com um saio, como uma figura dos séculos xiv-
XV, empunhando a aguilhada com a dextra, e seguran-
(i) Provêm da freguezia das Olaias, concelho de Torres No-
vas, e foram achadas em iSyS quando se preparava um terreno
para cemitério. Gfr. Zeferino Brandão — Monumentos e lendas de
Santarém, no Ba!, da Ass. dos Arq., 4." série, n.» 8, p. 7.
Nas «Informações arqueológicas colhidas no Diccionario Geo-
graphico, de Cardoso» publicadas pelo sr. Dr. Mesquita de Fi-
gueiredo no Archeologo, encontram-se as seguintes referencias a
respeito da igreja de Santa Marinha de Aljubarrota (vol. I, pag.
242): — «Divisão-se ainda hoje no seu adro as sepulturas com as
pedras lavradas por cabeceiras, com vários instrumentos de offi-
cios esculpidos, como são, arados, e outras insignias deste gé-
nero».
Nos «Extratos arqueológicos das Memorias Parocgiaes de
1758», publicados na mesma revista (\o\. II, pag. 187), aparece, a
respeito da igreja de N. S. da Conceição, ou da Serra, de Alquei-
dão, o seguinte : «Pela parte de fora da igreja se achão alguas
pedras como que servirão de campas, lavradas já com rocas e
fuzos, e já com arados e instrumentos de agricultura».
97
do iim cesto com a esquerda, que segue a junta de
bois jungidos ao arado.
A dobadoura, a roca com as suas aduelas, e o fuso
com o seu cossoh-o, igual à caxaréUc das terras de Mi-
randa, indicam, noutra cabeceira, as ocupações femi-
ninas da destinatária (fig. 36). No adro da igreja de
S. João das Lampas (Sintra) encontrei uma cabeceira
gravada com os mesmos utensílios, de um dos lados,
e do outro adornada com ílorões cujo estilo indicava
o período manuelino da nossa arquitetura.
Pertencem exclusivamente a Por-
tugal estas curiosas cabeceiras de se-
pultura ?
Evidentemente que não. Encon-
tram-se iguais e adornadas dos mes-
mos signos de misteriosa origem nos
países bascos. Pereira de Lima, no
seu livro /èerosei?asco.ç (Lisboa, 1902),
reproduz algumas e aliança que as
mais antigas delas remontam aos sé-
culos VIII, IX e X.
O meu ilustre amigo Eugénio
Frankowski, publicou na Terra Por-
tuguesa um largo e bem documentado
artigo mostrando a difusão dessas
cabeceiras por toda a Península e
fazendo entroncar a sua origem nos monumentos sepul-
crais ibéricos e etruscos (esteias de Clunia, Bolonha,
etc).
Na Hungria e Balkans (Bósnia, Servia, Bulgária,
Transilvania), nos cemitérios ruraes, aparecem esteias
ou postes de pedra e madeira fspeerkijlzer e fejfa) com
ornamentos e figuras semelhantes aos das nossas cabe-
Kig. 39
Do Santo Amaro
(BEJA)
98
ceiras (1). Na Ásia, na America (2), entre os povos de
civilisação oriental ou entre os selvagens, encontramos
enraizado o mesmo costume.
Este uso é, portanto, não só de remota origem,
como se disse no começo, mas, ainda, universal.
A forma especial das cabeceiras tumulares de Portu-
gal, com correspondência em toda a Europa meridio-
nal, derivou, em linha recta, das esteias romanas ador-
nadas de crescentes, suasticas e rosetas sexifolias, tão
vulgares no nosso país e de tipos tão puros, em espe-
cial na Terra de Miranda e sua vizinha Leon.
A generalização dos enterramen-
tos no interior das igrejas determi-
nou a extinção do costume das cabe-
ceiras lavradas com ferramentas de
oficio. Conheço, porem, casos do apa-
recimento dessas ferramentas, mes-
mo em lages tumbaes rétangulares.
Na igreja de Santo Amaro, em Beja,
existe uma lage tumular em que se
vêem gravados os instrumentos da
arte de ferrador (Fig. 39). E na igreja
conventual de S. Bento de Avis, so-
bre uma pedra tumular em feitio de almofada, divi-
sa-se uma tosca relha de arado, que claramente atesta
a honra em que «Manuel Luiz^ lavrador, natural de
!á. Çadorninho de Valongo, termo de Beuavila» tinha
a sua nobre profissão de trabalhador da terra...
Klg. 40
De Sousel
(i) Cfr. Worter uni Sache.n, II, pags. i23 e i32 ; Peasant Art
in Áustria Sc Hungary. fig. 5o6, e íigs. yoS a 709; An^. der Ethn.
Abt. d.Uugarische A'. Museums, lyoS, pag. 87 e ss.
(2) Rijks Ethnographisch Museum te Lciden — (Sgravenhage,
1906), PI. IX.
Hossa Senhora da (flzinheira
de Outeiro Seco (Chaves)
quatro quilómetros de Chaves, uns centos de
metros antes de chegar à povoação de Outeiro
Seco, nas faldas do cabeço da Senhora San-
tana, e à orla da várzea do Tâmega, y»^
levanta-se a igreja da Senhora da Azi-
nheira, porventura o mais interessante
monumento românico do extremo norte
do pais.
Composto de dois corpos retangu-
lares de desigual comprimento e lar-
gura, conserva ainda, obscurecendo
a entrada e o portal, um grande al-
pendre que não condiz, em estilo, com
o resto da construção.
Duas portas dão acesso ao templo :
a principal, de volta redonda, cuja
abertura ó ampliada por duas arqui-
voltas molduradas e assentes em im-
postas que, por seu turno, sobrepujam
dois pares de colunas de base larga e
capiteis lavrados ; e uma outra mais i^íg. 41
pequena, do lado direito. i-edra tumiuar
Uma faixa esculpida de uma espécie de axadrezado
100
formado de argolas, debrua a ultima arquivolta, ro-
çando na parte alta da curvatura por duas misulas que
serviram de ponto de apoio ao primitivo alpendre.
A porta lateral direita, cujo arco aguçado se apoia
sobre fortes impostas, tem de altura total, 1,77, e 0,82
de ombreira a ombreira fO,70 entre as impostas^, sen-
do portanto a sua abertura bastante acanhada.
Uma só janela antiga perdura
no edifício, a que se rasga a meio
da parede fundeira da abside. E'
uma fresta alta e estreita (0,09 de
largoy, provida, externamente, de
uma bela arcada de ponto subido,,
decorada de bolas, descançando
sobre colunas. Sobre a empena,
desta parede destaca- se uma cruz
primitiva que corresponde à que
encima a sineira de duas venta-
nas com volta de pleno cintro,
erecta sobre a empena da fronta-
ria.
Toda a cachorrada primeira, em
que se divisam desenhos vários,
rolos, bolas e caras de homens e
mulheres, muito perfeitos, se con-
serva integralmente, com 30 modi-
Ihões do lado esquerdo do côrpo^
32 do lado direito, e 21 sob as
cornijas da capela maior, distribuídos 10 para uma
banda e 11 para a outra banda.
O material empregado na construção é o granito em
blocos talhados e faceados, dispostos em fiadas hori-
son^^.aes, com as juntas sempre verticaes, ligadas com
Kig. 42
Fia n ta da igreja
a 1:100
(reduzida a '/*)
101
argamassa. Estas fiadas não são da mesma altura,
como não são do mesmo tamanho os blocos ou cantos
que as compõem.
O plano da igreja, de uma simplicidade estrema, é o
mesmo adotado na província fronteira em muitos dos
seus presbitérios ruraes, e de que um dos exemplos
Kig. 43
F»orta principal
tipicos e divulgados é Santa Eulália de Espenuca, na
Corunha. A pobreza de meios e tradições construtivas
em Trazos-Montes fez com que o, recebêssemos da
Galiza, sem alteração.
No interior da igreja, cuja nave única ó coberta d^
102
madeira, hà ainda que menoionar, como trabalho em
pedra, o arco do cruzeiro, modesto, mas cuja volta é
decorada com bolas, e ainda várias pedras tumulares
de lageamento irregular do solo, uma das quais con-
serva ainda muito nitido o desenho de um espadão de
combate, do século xiv ou xv e um punhal de lamina
curta e larga, insígnias reveladoras da dignidade do
cavaleiro que essa pedra cobriu na sua ultima jazida.
Das paredes da capela-mór pendem cinco quadros
em madeira, do principio do século xvj que me pare-
ceram bons, e por detraz do altar maior encontrei os
mais interessantes frescos do mesmo século, que co-
nheço em Portugal. Sobre a parede fundeira, de um
lado e outro da fresta atraz mencionada, conservavam-se
em estado lamentável de abandono, à data da minha
ultima visita (1916), dois lindos grupos de figuras pin-
tadas a fresco, representando um deles a passagem da
Anunciação, e o outro dois santos, num dos quais re-
conheci S. Francisco. Pela fresta desvitrada entravam
a chuva e a neblina da veiga, que, inverno a inverno,
iam babando e deteriorando as pinturas. Ignoro o esta-
do em que se acham, mas como a camada de estuque
ja abria e caía em partes, ó possivel que estejam defi-
nitivamente perdidos, e o que ó peor^ sem terem sido
arquivados ao menos por um esboço.
Toda a igreja deve ter sido pintada a fresco. Certas
cercaduras e uma inscrição em letras góticas de um
sepulcro representado numa das paredes, levam-me a
essa opinião. Infelizmente os pinta-mônos a quem mais
tarde foi entregue a tarefa de repintar as paredes en-
09.rregaram-se de destruir quasi toda a obra antiga.
Igreja de S^mto flndré, em TT?afra
JA saída da vila de Mafra, para o lado do mar,
encontra-se uma velha igreja, semi-arniinada,
em que, no propósito louvável de a restaurar,
se instalaram há muitos anos vários operários e um
encarregado das obras publicas, os quais, metódica e
pausadamente vão procedendo aos trabalhos, cuja
conclusão se me antolha provável em tempo de seus
bisnetos.
E um belo monumento do gótico primário, com
corpo de três naves e capela-mór de cabeceira poligo-
nal, edifício muito raro nesta desolada zona dos arre-
dores de Lisboa, onde poucas construções arcaicas os
terremotos e as restaurações deixaram sobreviver, e
que por isso mesmo deve ser tratado com carinho e
convenientemente protegido.
Exteriormente há que notar no templo a porta prin-
cipal com um belo arco ogival de três arquivoltas,
sendo as interna e externa de aresta em toro, e a in-
tercalada de esquina viva, assentando todas em colu--
nas curtas, cujos capiteis são adornados de folhas es-
palmadas e multinervadas. Alcança-se essa porta por
uma escada de seis degraus.
A porta lateral direita reproduz a principal na dis-
posição e decoração.
104
A abside é retangular, terminando no topo livre em
três planos, fortelecida em redor com seis botareus
providos de gárgulas, e rematada por uma cimalha es-
tribada em cachorros, todos iguaes e desprovidos de
Kig. Ac
IPorta prinelpfcil dti igroja cie Sfciiito A.i-iclré (Mafrèi)
(Fotojíiafla do aiitor)
ornamentação. Duas janelas colocadas ao centro da
construção, uma de cada lado, davam luz ao interior.
As goteiras são de secção poligonal, adornadas no tron-
co com bolas e terminando em carrancas singul^ires,
106
Kig. 4 6
F>orta lateral direita de Santo André
(Fotografia do autor)
A capela-mór é mais baixa que o corpo. Na empena
da parede que separa as duas partes da igreja divisa-
-se um óculo de abertura quadrilobada, fortemente en-
caxilhado, a que correspondia na empena da frontaria
uma rosácea hoje meio destruída. Este óculo é de um
tipo vulgar, precisamente igual ao que ocupa idêntico
lugar, por exemplo, na igreja de S. Martinho de Mouros.
106
Interiormente o corpo acha-se repartido em três
naves, comportando as lateraes quatro vãos abobados^
com abobada em barrete de clérigo, de nervuras sim-
ples e grossas.
Para a capela-mór entra-se por um arco muito largo
semelhante ao da porta principal e xsomo ele ogival,
de três arquivoltas, com as lateraes em toro e a inter-
calada em aresta, apoiadas sobre ábacos retangula-
res e capiteis que seguem vagamente a inclinação dos
fustes mas sem ornatos ou com eles apenas indicados.
Esses fustes são pentagonaes e as bases assentam sô-
,bre socos retangulares. Reconhecem- se ainda sobre
eles restos de pintura a negro e vermelho, e a dourado
sobre os capiteis.
As nervuras da abobada, cujos pés vem descançar
sobre colunas de capiteis e fustes redondos, são gros-
sas, de secção pentagonal, e vão terminar em dois fe-
chos ornamentados que são ligados por uma fita de
cantaria lavrada, adornada deflores, cabeças de cravos,
rosetas, rosas quadradas, eto. Dos dois fechos, um está
lavrado com flores estilisadas, e o outro com um lin-
do suástica de 18 raios curvos. Esta ornamentação
conserva um aspecto acentuadamente românico, o que
não tí de admirar, conhecida como é a persistência do»
motivos decorativos bizantinos até ao pleno natura-
lismo gótico.
Na Estremadura há duas igrejas que aparentam
grande afinidade construtiva e decorativa com Santo
André de Mafra. São as de S. Leonardo da Atouguia
da Baleia (*) e S. Francisco de Alemquer, as quais,
como a primeira, podemos atribuir ao século xiv.
(») «Terra Portugueea» N.« 4, p. 110 e s. e.
107
O material empregado na construção de Santo An-
dré foi uma pedra apiçarrada, local, excetuaudo os
portaes de honra e o arco triunfal, onde se utilisou o
lioz. Pouquíssimas siglas se me depararam na silharia,
e essas mesmas incaracterísticas.
No interior junto da parede direita, logo perto
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Kig. 47
Trecho da faicl-ia ornamental do centro da alDobada
(Fotografia tio autor)
da entrada, estão dois grandes sarcófagos de lioz.
branco, encostados pelos topos superiores. São leve-
mente trapezoidaes, com dois metros de comprido,
0,70 no topo superior, e 0.60 no inferior. A tampa, de-
dorso em dois planos, ó debrudada por uma cercadura.
108
de folhagem seguida, estilisada, que acompanha o
moimento sobre três lados.
Um dos túmulos tem gravados, no corpo da arca,
cinco escudos esquartelados de quinas e cadernas. No
outro aparece este mesmo escudo a meio da arca,
acolitado por outros dois cortados em faixa (sem tra-
ços de separação), ornados de esmolneiras veiradas.
Ehcontrarn-se ainda no-- interior diversas inscrições
lapidares, quasi todas do século xviii. ííuma lage que
foi levada para fora da igreja e'jáz ao pé da escada
da porta principal, lê-se : Fui quocl es eris quod su7n —
Franciscus Aloysius Pereira equestris turmaé diictof pos-
tridie kal. januar. an. MDCCxxxviii. Ura amador de
belas letras este capitão de cavalos, que, possivel-
mente, combateu ainda nas campanhas da restaura-
ção. . .
Detráz da capela-mór, apeados no meio das silvas
e dos pedregulhos, jazem dois sinos que pertenceram á
torre ou sineira da igreja, hoje destruída. Ujné mo-
derno e pequeno, outro, que mede um metrp 4^ ftltu-
ra, está datado d.e 1739. ; .
Perto da igreja levantamse os restos de um palácio
que pertenceu aòs Viscondes de Vila Nova da Cer-
veira. ...
E aqui terminam as notas que, sobre a igreja gótica
de Santo André de Mafra, tomei num lindo dia de
•outono do ano de graça de 1914.
Esculturas arcaicas do IHuseu de
Lamego
JAiíA quem aborda Lamego pela banda das ser-
ras, e a avista de longe, das estradas de Moi-
menta ou do Castro, a cidade aparece repar-
tida em duas manchas irregulares de casario, no meio
das quaes se ergue, coroado da sua torre de menagem,
o morro amuralhado do Castello.
Uma dessas manchas estende-se para o norte e á.
volta das faldas da fortaleza, tendo por centro a pra-
ça de Almacave, vizinhando com as paredes escureci-
dos da igreja ducentista do mesmo nome ; a outra
agrupa-se em volta da Sé e prolonga-se depois até o
populoso arrabalde da ponte do Balsemão, um dos
pontos de forçada passagem no caminho para a cidade.
Já no século xvi a cidade estava dividida da mes-
ma sorte. Na Descrição do terreno em roda de Lamego,
de 1Õ32, mestre Kui Fernandes «tratador de lonas e
bordatas», mostra-nos dum lado o arrabalde da Seara,
moradia do povo miúdo e trabalhador, do outro lado
o bairro aristocrático da Sé, onde a nobreza levanta-
va os seus palácios e se albergavam o bispo, os cóne-
gos e os beneficiados, e no meio, sobre o outeiro cu-
jas encostas do lado do nascente verdejavam de vinhas
em socalcos, a alcáçova amuralhada e torreada.
110
Foi entre o bairro da Sé e as faldas do castelo, à
orla dum riacho que a «ponte da Olaria» cavalgava
um pouco mais a montante, em terreno livre e plano,
que o bispo D. Manuel de Vasconcelos, que governou
a diocese até 1786, decidiu levantar um paço novo,
em que melhor se acomodassem sua casa e serviços.
Esse paço ergue-se sobre um dos lados dum grande
espaço triangular, hoje ajardinado, onde desemboca a
estrada da Régua., sendo os outros lados, num conjun-
to interessante de edificações, ocupados, duma banda
pelas casas do cabido e claustro da Sé, em que uma
inscrição sob a colunata da varanda renascença ficou
memorando a fundação pelo bispo D. Manoel de No-
ronha, em 1557 ; e da outra pela frontaria pitoresca e
graciosa do Hospital Velho, lindo edifício da primeira
metade do século xviii que um incêndio deixou redu-
zido às paredes, e a que logo se segue a massa pesa-
da do antigo Seminário, hoje transformado em quar-
tel.
Projectado para um local onde o terreno abundava,
o paço episcopal não teve necessidade, como os de
Vizeu, de S. Vicente de Lisboa, de Leiria ou de Évo-
ra, de ganhar em altura o que lhes escasseava eín lar-
gueza. Ficou por isso um edifício amplo e baixo, qua-
drangular, de dois pavimentos, incluindo ura grande
pátio onde as liteiras e coches episcopais podiam evo-
lucionar à vontade, à chegada ou à partida do bispo
para as peregrinações diocesanas ou para os passeios
às quintas de recreio de Arneiros, de Medeio, ou Cas-
tro Daire.
Construido no estilo corrente no tempo de D. Maria I,
o edifício não apresenta a fínura das construções do
século XVI, a sóbria firmeza das do século xvii, ou a
Ill
gracilidade das do principio do século xviii. A sua
vastidão, porêin, o espaçado das janelas, e a sua pou-
ca altura evitam a impressão desagradável que as cons-
truções do mesmo estilo causam, em terras de grani-
to, com a acumulação de aberturas e andares.
No salão de entrada, vastíssimo, encontra-se um
grande numero de objectos de épocas diferentes, en-
tre os quais ha que mencionar, como notáveis, quer
pelas molduras, quer pelo próprio valor, vários qua-
dros dos séculos xvii e xviii. Entre os de primeira ca-
tegoria conta-se uma serie de retratos setecentistas,
emoldurados de rica talha ; entre os da segunda, a co-
leção de telasinhas do «Filho Pródigo». Esses qua-
drinhos em que se relatam as aventuras do filho fa-
amilia que, depois de pedir a sua legitima a vai rapi-
damente desperdiçar no jogo e nos festins, terminan-
do por cair na maior miséria, guardar porcos uo mon-
tado e voltar, arrependido, ao aprisco do lar paterno,
são ocupados e movimentados por personagens do sé-
culo XVII, vestidos a rigor e com todo o requinte da
moda, documento absolutamente precioso para o estu-
do da indumentária civil da época. Alberto Souza ilus-
traria com eles, maravilhosamente, tal ato ou novela
de Júlio Dantas. . .
Entre as peças mais curiosas e de maior interesse
arqueológico existentes neste salão do museu de La-
mego figuram três esculturas representando a Senhora,
e os apóstolos Pedro e Paulo, que podem considerar-se,
sem favor, os mais antigos documentos conhecidos da
imaginaria portugueza em madeira.
112
In formaram- me de que provinham de Balsemão. É
possível; mas nas duas noticias impressas onde se fala-
destas esculturas, não se menciona o lugar donde fo-
ram trazidas.
Na monografiasinha sobre o Paço Episcopal de La-
mego f'Porto-1908^, o sr. J. J. Rodrigues diz-nos so-
mente que, tencionando o bispo D. Francisco Vieira e
Brito «constituir no Palácio Episcopal um muzeu de
escultura, reunindo o que, pelas igrejas das freguezias
circunvizinhas poderia haver de dispensável» conse-
guiu fazer recolher à sede do bispado, alem de uma
peça de real valor, uma Virgem gravida do século xiv^
«algumas obras toscas e inclassificáveis de épocas ar-
caicas». Estas obras toscas eram, indubitavelmente^
as três esculturas a que me refiro^ e que apezar de to-
dos os bons desejos permaneceram na Sé, abandona-
das, durante alguns anos.
Aí as viu o pintor viziense Almeida e Silva, que
numa noticia enviada ao jornal O Século, e publicada
em 10 de Março de 1910, sob o titulo Alguns esclareci-
mentos sobre os quadros de Vizeu, escreveu o que se segue r
«Incidentalmente, direi que na Sé de Lamego vi a
um canto três esculturas em madeira, a Virgem, S. Pe-
'^ro e S. Paulo, que me parecem ser no género o que
de mais antigo existe em Portugal. Têem a pregaria
das roupagens angulosa e cingida ao corpo, n'um puro'
estylo bysantino, sendo certamente anteriores á monar-
chia portugueza. A madeira delas esboroava-se, não de
podridão mas de velhice, por uma forma para mim.
desconhecida. Recomendei aos srs. cónegos a estima-
ção dessas preciosidades — que deviam estar resguar-
dadas em redomas de vidro — não sabendo se as minhas,
palavras foram ouvidas ou não.»
L,fci m . 1 1
Kig. 4S
Nossa Senhora e S. t^aulo
Esculturas em madeira do Nlusevi de Lamego
(.Fotografia do autor)
li
113
As palavras do pintor não Ibram ouvidas e as está-
tuas continuaram na Sé, até que com a criação do
Museu de Lamego foram transportadas ao antigo Paço
do Bispo, onde hoje estão entregues aos cuidados do
sr. João Amaral, proficiente director do estabeleci-
mento.
Remontam, pelo menos ao século xiv, essas imagens.
Os apóstolos parecem arrancados de um portal ro-
mânico, com as suas faces paradas, as barbas talha-
das rectilineamente, as pregas rígidas do vestuário
caindo sem maleabilidade^ os pés e as mãos apontados
rudimentarmente. A Senhora, de factura um pouco
mais cuidada, mas em muito mau estado de conser-
vação, aparenta-se com as primeiras virgens góticas.
Faz-lbes companhia uma Senhora da Expectação,
em pedra de Ançã, representando com um realismo
puramente medieval, a Virgem gravida, a mão esquer-
da pousada sobre o ventre, no mesmo gesto cheio de
abandono e de resguardo que as pejadas soem fazer.
Não é única em Portugal, esta imagem. Em Balse-
mão, bem perto de Lamego, existe outra, e conheço
mais na Sé de Évora, na matriz de Góes (esta desco-
berta recentemente), na igreja da Alcáçova, em Monte-
mór-o-Velho, no Museu Machado de Castro, de Coim-
bra, (que pertenceu á Sé Velha), etc.
A denominação genérica de todas estas imagens é a
de € Senhora do O'» ou da Expectação,
Cinco quadros em madeira, dos quaes um só de real
valor, representam neste salão, a pintura portuguesa
do século XVI. O Padre Eterno ou S. Canuto, segundo
as duas interpretações que conheço, aparece, no qua-
dro melhor, rodeado de animaes, alguns exóticos, no-
8
114
tando-se nesta taboa líma frescura e firmeza de com-
posição que indicam a autoria de um bom artista do
primeiro terço do século de quinhentos.
Escanos forrados de couro lavrado, cadeirões de al-
to espaldar e cachaço pregado, secretárias de pau pre-
to, consoles entalhadas, numerosíssimos exemplares de
imagens estofadas a ouro vivo, rutilando de pedras
falsas, obra dos escultores regionaes, uma linda ca-
deirinha rocaille e um bom quadro do nosso Briareu
de pintura, Pedro Alexandrino de Carvalho, comple-
tam de um modo pitoresco a guarnição artistica deste
salão.
Seguem*se, na ala esquerda do edifício, quatro salas
colgadas de tapeçarias que são as melhores peças do
Museu, e os mais formosos exemplares expostos em
coleções portuguesas, distinguindo-se nitidamente en-
tre elas três series diversas, duas do primeiro terço
do século XVI, e uma do principio do século xviii (').
(i) E não era só das suas tapeçarias do Paço do Bispo, que
a cidade de Lamego podia orgulhar-se. Eram celebres também
os panos da Misericórdia, porventura vastíssimas telas pintadas
scenograficamente, cuja relação encontrei no Livro da Miseri-
córdia, de 1565, e que transcrevo :
«■InvC-tario dos panos pintados cõ que se a casa arma nas
endoenças :
Itc hu toldo em que esta pintado Ds padre cõ quatro profetas -
este se arma do cruzeiro para baixo.
outro toldo em q esta pintado o sol cô quatro evangelistas - es-
te se arma pegado cõ o outro e chega até o coro.
outro toldo que se arma debaixo do coro que tem pintados os
escudos e as chagas.
debaixo do coro da parte do evangelho se poC o pano do orto.
115
Como mais antigas podemos considerar as que re-
presentam a História de Paris, seguindo-se-lhe a His-
toria de Édipo, e de época mais tardia já, a Historia de
Alexandre. "
Da Historia de Paris, existe, completo, um grande
pano que o Diretor do Museu conseguiu armar e com-
pletar atravez mil canceiras. As figuras, algumas com
os nomes em góticos marcados sobre as roupas ou sob
após este o pano da prisam q começa pegado com o peitoril do
coro.
outro pano pegado cõ este quando xpõ foi levado ante anaz.
outro pano logo em que esta pintado ecce homo.
outro logo do lavamento das mãos de pilatos.
outro pano quando foi levado ante pilatos e sentèciado, e estes
chegam até o cruzeiro.
no cruzeiro o pano grande q atravessa a igreja q tem o encra-
vam.'» e crucificam.'" e decim.'" da cruz.
da parte da epistolla logo pegado cõ este pano do cruzeiro se
põem o pano quando meterò a xpo no muymento.
abaixo deste quando descendeo aos infernos.
pegado cò este o pano da Resurreiçào.
logo abaixo o pano quando apareseo aos apostollos em casa de
maus.
outro pano quando xpo apareseo aos appostollos todos ecõ es-
te chega ao peitoril do coro da epistolla.
debaixo do coro da ilharga da epistola se põem outro pano da
entrada de Jerusalém.
outros dous panos das morte se põem as ilhargas da porta prin-
cipal e no meio do postigo na meia porta hum pano peque-
no de -uando se inforcou Judas
debaixo do pano do cruzeiro de hua ilharga se põem hua guar-
da porta quando cristo levou a cruz as costas.
da outra parte outra guarda porta do açoutam.' de xpo.
todos estes panos estam em hua arca grande que esta na casa
do cabido.
116
08 pés dos personagens, tal como se usava nos qua-
dros da época, são do mesmo gosto das que encontra-
mos nas celebres Moralidades e Historia de David da
coleção de tapeçarias da Coroa de Hespanha.
Este pano diferencia-se dos da História de Édipo
pela cercadura e pela larguesa com que, nestes últimos,
— por ventura copiados de cartões de um mestre da
escola renana, segundo opina o meu colega Luís Keil
— são tratados os personagens.
A série da História de Édipo, consta de vários panos,,
no maior dos quaes se refere o episódio de Laio, rei
de Tebas, que por um oráculo lhe haver dito que seu
filho o mataria o marídou lançar às feras no mont&
Citeron. Recolhido por uns pastores que o encontra-
ram suspenso de uma arvore com os pés inchados da
pressão das cordas (donde o nome de Oedipo), levaram-
no estes a Polibio, seu amo, rei do Corinto, que edu-
cou a creança como seu próprio filho. Depois de peri-
pécias várias Édipo mata o pae, sem o reconhecer, &
termina por desposar a própria mãe. Esta scena dos-
esponsaes é uma das representadas nos panos, cuja
série, está evidentemente, incompleta.
O sr. dr. José de Figueiredo atribue estas tapeça-
rias a uma das melhores oficinas de Flandres.
O sr. Joaquim de Vasconcelos publicou na Arte Re-
ligiosa em Portugal, n,° 12, um estudo acerca das tape-
çarias do Paço, e foi ele que pela primeira vez deu o no-
me de História de Édipo, a uma das séries de panos.
A última sala do edifício, cujas janelas, ligadas ex-
teriormente por uma grossa varanda corrida de gra-
nito, abrem para o largo do antigo Rossio, hoje ajar-
dinado, abriga as melhores obras de pintura do Mu-
seu. E aí que se encontram os quatro quadros primi-
117
tivos que pertenceram ao Cabido, e que os críticos de
arte, portugueses e estrangeiros, colocam entre as me-
lhores obras dos pintores portuguezes do principio da
século XVI.
Representam-se, nesses quadros, vários passos da
vida da Senhora e do Menino, até á Circtimcisão. No
■quadro da Visita a Santa Izabel, em que as arquitetu-
ras do fundo e a paisagem revelam a copia de um
original flamengo, o pintor colocou, num canto, um
carro de bois beirão, do tipo que ainda hoje se conser-
ta entre Lamego e Vizeu.
Dos quadros mais recentes e de menor valor, do
precioso mobiliário dos séculos xvii a xviii, de todo
esse mundo de santos, obra dos entalhadores de La-
mego, dos quadrinhos ingénuos e delicados feitos pe-
las freirinhas do Convento das Chagas, não vale a pena
dizer mais, nesta abreviada descrição do Museu, des-
tinada somente a chamar a atenção sobre este belo
repositório de obras de arte que, devido aos esforços
do sr. dr. Alfredo de Souza, na região, e do sr. dr.
José de Figueiredo, em Lisboa, se conseguiu criar
para salvação de preciosidades e engrandecimento da
cidade.
Virgens pejadas
E quantos teem entrado no Museu Machado de
Castro, de Coimbra, esse precioso exemplo
t^^^^i^JÂ de quanto pode o muito amor de poucos, à
Arte, ninguém por certo deixou de sentir a atenção
solicitada pela magnifica galeria de imagens góticas
que lá se quedam deslumbradas da luz, saudosas dos
nichos ensombrados e recolhidos das suas velhas igre-
jas. A todas se avantaja, para mim, a Virgem pejada,
bela escultura do século xiv, em cujas roupagens dé
panejamentos superabundantes se reconhecem ainda
os vestigios da pintura policromica com que o medievo
santeiro a estofou.
Essa figura, apesar do afastado da época e do nos-
so habitual atraso artistico, é um belo exemplo do pro-
gresso do trabalho da pedra em Coimbra, na Idade
Media ; apresenta vida e realidade na expressão dolo-
rida e espectante da face, no gesto quebrado da mão
que aconchega o ventre entumescido, no avançar in-
quieto e suplicante do outro braço. Estava na Sé Ve-
lha, e a seus pés rojavam-se, suplicantes de um bom
sucesso, todas as mães da cidade.
Não é a única que existe no distrito. Em Montemór-
-o-Velho, no santuário românico de Santa Maria da
Alcáçova, que o bispo de Coimbra D. Jorge d'Almeida
120
refundiu no later gothic^ outra Virgem pejada repousa,
ao abrigo da absída esquerda, envolta na meia luz que
tomba da rosácea da frontaria.
Pelo resto do país aparecem também, nos velhos
presbitérios românicos e góticos, e até já fui encontrar
uma na capela de S. Pedro de Balsemão, aquele pre-
cioso relicário da arte e arquitétura visigótica, único
entre nós. Chamam-lhe lá a Senhora da Pena, e a três
quilómetros apenas, em Lamego, uma imagem congéne-
re é a Senhora dos Meninos, hoje recolhida no museu
da cidade.
Disse-me um dia o Dr. Teixeira de Carvalho, que
existia outra em Évora. . . E quantas mais não existi-
riam por essa bemdita terra de Portugal fora, onde sem-
pre houve mães anciosas, no sacrifício doloroso da ma-
ternidade !
Essa Senhora da Espectação tem o seu altar a meio
da nave central da Só de Évora e obedece ao canou
geral seguido pelos imaginários de Coimbra.
No intento de descobrir mais alguma ainda, dei-me
um dia a percorrer os tomos do Santuário Marianno^ e
não foi de todo infructifero o meu jornadear pelas res-
mas do seu papel amarelecido. Encontrei a primeira
em Torres Novas, onde o auctor dizia da Senhora do
Ó, que se encontrava na igreja matriz, em Santa Ma-
ria do Castelo : fHe eata santa imagem de pedra ; mas
de singular perfeição. Tem de comprido seis palmos.
No avultado do ventre sagrado se reconhecem as es-
peranças do parto. Está com a mão esquerda sobre o
peito e a direita estendida. Está cingida com hua cor-
rea preta, lavrada na mesma pedra ...»
Vinha outra nas alturas de Tomar, e estava na «Ca-
sa de Nossa Senhora do Ó, situada junto ao rio Na-
121
bão na freguezia de S. Pedro da Bibirriquyra. . . He
de pedra, a sua estatura são 4 palmos, vê-se com o
ventre crescido e a mão direita sobre ele e na esquer-
da um livro aberto. . . ».
Nestas duas, cuja descrição transcrevo pelo que as
figuras são semelhantes á imagem de Coimbra, ha
referencia especial ao ventre ; em muitas outras porem
4 citado apenas o titulo da invocação : assim a Senho-
ra do O, das Aguas Santas (Leça do Bailio), a de
Santa Ovaia de Baixo (Besteiros), a das Córgas (Pe-
nalva de Viseu) e muitas mais.
Tive, em meadas de 1919, ocasião de examinar em
•Góes mais uma Senhora deste tipo, talvez um pouco
mais tardia, que apareceu numa excavaçáo feita em
terreno contiguo à igreja. Decerto fora mandada en-
terrar fora do templo por algum abade mais escrupur
loso ou ignorante. Recentemente ainda, o prior de São
João das Lampas mandou enterrar também uma ima-
gem''do mesmo gosto, que pertencera à igreja destrui-
da de Garoaria e recolhera ao seu presbitério, inocen-
temente . . .
Nenhuma destas esculturas é posterior ao século x\ft-
Com o gótico medraram e se espalharam pelo paiz e
<jom o terminar dele findou o seu domínio. A Renas-
•cença fez desaparecer de todo os vestigios de um rea-
lismo que ela já não compreendia na religião.
O culto da Expectação continuou até nossos dias,
mas nunca mais canteiro algum ousou desbastar na
pedra rugosa a curva panda de um ventre, sob as rou-
pagens distendidas e os cintos alargados.
12-:
A denominação genérica de todas estas imagens é a
de Senhora do O, ou da Expectação e narram os agió-
grafos dos séculos xvii e xviii que a origem da desi-
gnação remonta a tempo dos godos. No ano 8." do rei-
nado de Recesvinto (ano <3G1), foi instituida em conci-
lio celebrado em Toledo, a festa da «Expectação do
parto da Senhora». '
Costumava a igreja e costuma ainda, cantar nos se-
te dias que precedem o natal umas antifonas que to-
das principiara pela letra O e, como dizia um desses
autores, «clausulava o Oficio Divino com huas vozes
sem concerto, nem harmonia, dizendo todo o clero e
todo o povo, a gritos O, O, O. Destes O, O, teve o
principio o intitular-se esta festa, do O, e também o
dar-s5e este titulo à mesma Senhora em suas Imagens,
que era o mesmo que intitularem á Senhora em seus
desejos, ou celebrar a festa dos desejos da Senhdra.»
E' interessante, como se vê, a origem da designa-
ção e náo deixa de ter um certo encanto a transfor-,
mação popular do O ritual, no O fervoroso e ansiado
de esperança materna.
Instituída a festa na Hespanha, na visinha Toletum
e como em Portugal a abundância das já citadas vir-
gens comprova o quanto ela se espalhou pelo país, fa-
cilmente se compreende que não terá sido menor a sua
dispersão pelo resto da Peninsula. Não vi, porém, ain-
da, em livro ou revista de arte, cousa alguma que me
autorise a acreditar que este culto e a sua realista re-
presentação, se houvessem espalhado na Itália ou na
França. Pelo espanto que um estrangeiro, membro do
congresso do Turismo de 1911, o artista e pintor Jan
123
Matteix, de Toulouse, me significou quando lhe mos-
trei a Virgem pejada do antigo Museu do Instituto, que
afirmou ser a primeira que assim via e logo desenhou,
acabei de convencer-me de que esta representação an-
tropomórfica não passara os Pirinéus.
De resto ha muitas outras cousas de igreja que sãa
peculiares a Hespanha e a Portugal ; é muito possível
que este culto não existisse sequer fora da Peninsula.
Evidentemente a instituição desta festa teve, como a
de tantas outras, a utilidade e o fim claro de cristiani-
zar um culto pagão à Fecundidade, existente entre os
ibero-romanos.
As representações esculturaes das virgens d'hoje,
não passam de cópias de esculturas anteriores, pagãs.
Assim, as virgens sentadas, com os hamhiní ao colo^
aparecem já com frequência entre as deae matres da
panteon latino, ou nas figuras da Demeter grega do
século V, tão delicada e deliciosamente creadas no bar-
ro pelos coroplastas beócios.
Sem pretender agora fazer uma ligação ou estabe-
lecer uma continuidade tradicional completa, para que
me faltam alguns elos, sempre quero referir-me ao-
quanto este realismo artístico que fazia representar,
deificada, a mulher gravida, remonta longe nas épocas
e civilisações.
Desde as primitivas ertis o mistério da Fecundidade
impressionou os povos ; nada portanto mais natural
do que a divinisação desse mistério que os fazia viver ;
e essa divinisação unia na mesma veneração a mulher
124
8 a natureza, uma imagem da outra, ambas igualmen-
te fecundas e criadoras.
Descobertas recentes teem resuscitado dos estratos
arqueológicos pequenas figurinhas de barro, terre cotte
rudimentares das idades do bronze e da pedra polida,
longiquas antepassadas das tanagreanas de Difilos, re-
presentando divindidades, entre as quaes ao lado de
ídolos femininos de formas normaes se encontram ou-
tros de ventres rotundos. Estes descobrimentos fi^e-
ram-se no Egito neolitico, em Malta préistórica, na
camada micenica de Phaestus, etc, e até foram acha-
dos dois Ídolos deste género em Adulis (Colónia Eri-
trea), do século v depois de Cristo.
Dedicaram-se ao assunto alguns dos melhores tra-
balhadores da arqueologia, e pelos estudos de sábios
como Angelo Mosso, que lhe reservou um capitulo da
sua «Preistoria», chega-se hoje à conclusão de que des-
de os mais remotos tempos o homem adorou a mulher
pejada, simbolo da Fecundidade.
As Senhoras do O, não vieram, portanto, senão con-
tinuar uma tradição religiosa muito antiga.
Lfcim. III
Kig. 49
Senhoras da EspectaçSo, ovi do O, do Vluseti de Lamego
e da capela de Balsem5o
^Fotog^afias do autorj
Qapela da Senhora de Guadalupe
(5. Paio-Vila Real)
%l
uns quatro quilómetros de Vila-Real, para NEl.
sobre um cabeço cujas faldas são hoje contor--
nadas pela linha férrea da Régua a Vidago, le-
vanta se a capela da Senhora de Guadalupe, um belo
monumento erguido durante o século xv, mas cuja
simplicidade arquitetonica facilmente nos induziria a
considera-lo de época anterior.
Isto mesmo tem sucedido com outros templos da.
região. A igreja de S. Domingos, o que resta do con-
vento vilarealense de dominicanos destruído por um
incêndio, e fundado em 1422, foi já considerada, pela
sua rudeza estrutural e decorativa, uma construção
românica ('). E a capela de S. Diniz, na vila velha,
dentro de cemitério moderno, poderia também, se não
houvesse a certeza da data da sua fundação, ser repu-
tada igualmente como monumento anterior ao sécu-
lo xiii, o mesmo acontecendo a tantos outros edifícios
religiosos transmontanos, dessa época e seguintes, pois
que sempre à província chegaram com atrazo os pa-
drões das modas.
(í) Vide a serie de artigos «Vila Real de Traz os Montes», pu-
Llicados pelo dr. António Granjo, na Lacta, em 1910.
126
São poucas e confusas as indicações referentes a esta
igreja, que mal aparece citada nos agiologios ou nas
corografias. O próprio ncme o recoliii no povo que lhe
fica mais vizinho.
Ergue-se o monumento, imponente e maciço, sobre
um terreno um tudo nada declivoso, levantando bem
alto a sua frontaria lisa e tostada dos séculos, que a
empena, encimada por una sineira esguia, parece tor-
nar mais alta ainda.
Uma porta de arco subido, modesta, encaxilhada de
ombreiras toreadas, a que uma arcada cega, — cujos
pés assentam em misulas à altura em que na porta de-i
veriam existir os capiteis^ — serve de sobreceu orna-
mental, dá acesso ao templo, na fachada. Duas portas
lateraes, do mesmo gosto, mas de volta redonda e com
as arcadas superiores adornadas, completam o número
habitual das aberturas ao rez da terra que comporta-
vam os edifícios religiosos do tempo.
Sobre as portas e logo por cima da linha dos cachor-
ros de suspensão dos alpendres — 4 na frente e 8 late-
ralmente, — corre um resalto de pedra a todo o compri-*
mento das muralhas, adotado, evidentemente, para des-
monotonizar as grandes superfícies lisas, caída em des-
uso como estava já, no tempo da edificação, a fábrica
variada dos portaes românicos, pesados por vezes, mas
quê só por si enchiam de vida e animação a face gra-
nítica dos presbitérios.
No largo espaço compreendido entre o resalto apon-
tado e a sineira que sobrepuja a empena da frontaria —
em verdade quanto mais ligeiramente do que nos ediíi-
cios dos séculos XII e XIII, — abre-se um óculo emmoldu-
rado, a que corresponde, na empena da parede fundeira
do corpo, um outro de luz recortada em sino-saimão.
I
127
Uma soberba liaha de 26 cachôrroá aguenta o friso,
de cada lado, sendo quasi todos esculpidos diversa-
10 ^
tii 5
i)
mente, com representações de figuras humanas e de
diabos, salientando-se uma série de caras de homens,
envolvidos em capuzes, e de mulheres, de mantilha so-
queixada. Alguns dos bustos são acompanhados de
128
braços, que seguram quer um livro, quer uma borra-
cha, ou uma roca envolvida no seu maneio de lã.
Entrando, nota se que a capela é tão grande como
qualquer das igrejas românicas atraz estudadas, pois
mede 17,tíO de comprido, no corpo, por S,õO de largo,
e na capela maior, respectivamente^ 8,70 por 5,26.
O arco tçjunfal é de ogiva larga, pesado e sem en-
feites, com as esquinas das pilastras, na parte voltada
para o corpo da igreja, chanfradas,
A capela-mór é muito mais baixa que o corpo e
ameada externamente, já à moda do século xv, vendo-se
cravado um escudo episcopal na sua parede fundeira,
que é rematada por um calvariosinho muito tosco, da
mesma época e semelhante a outro que ficou num lar-
go, perto da frontaría da igreja.
Várias siglas em letras góticas, m, h, g, d, 9, e abre-
viaturas dos nomes dos canteiros, g.° (gonçalo) e á."
(diogo), aparecem gravadas sobre os silhares e até so-
bre os cachorros.
Restam ainda no lagêdo do solo algumas incrições,
como a da pedra tumbal de um Álvaro Lopes, de 1657,
e uma outra mais importante pela designação do bo-
cal, a — 5.* de Marti Vaz de S. Paio. Fidalgo da casa delrei
meu s.""" e Erd."* 1595; e nas paredes pinturas horríveis
que possivelmente substituíram bons frescos do fim do
século XV, pois que à igreja atribui, para época de fun-
dação^ a segunda metade deste século.
Em 1464 foi D. Afonso V em peregrinação a Gua-
dalupe, e é possível que depois desta viagem o culto
pela Senhora dessa invocação se afervorasse em Por-
tugal, provocando fundações religiosas como esta de
que me acabo de ocupar.
Uma estátua tumular da Sé de Lisboa
|.MA e meia do dia 29 de Junho de 1916. O sol
dardeja a pino sobre a silharia escurecida e
patinada da Sé. Pelo grande portal, sujo e
frio, entro na meia treva das naves, cortada a espaços
de reflexos dos azulejos que a luz, tombando do alto,
vem ferir irregularmente. Sob o cruzeiro um cónego
gesticula ante um grupo desatento. Mesmo dentro das
naves o ar aqueceu.
Uma tosca porta de tabões mal aplainados separa a
igreja da sua charola em obras. Passada ela deixa-se
o mundo religioso e entra-se no da arqueologia.
As capelas do deambulatório, desaparecendo sob
prumos 6 andaimes, parecem troços de obra nova. A
uma delas, já completa, com o lioz picado brilhando,
recolheram novamente os três sarcófagos estudados
por Gabriel Pereira. A luz, coada suavemente pelos
vitrais envolve de um tecido tremente de sombras as
estátuas jacentes, o ricomem barbado, tentando ainda
arrancar fora a espada, as mulheres, tranquilas, lendo
os seus livros de oração de laudas gravadas em gótico,
abertos sobre o peito. Pregas rígidas do vestuário,
sapatos em bico, lebreus aos pés. Esculturas do pleno
século XIV, duras, de uma dureza ainda acentuada pelo
lioz era que as talharam.
9
130
Passa-se para o Claustro, de lagêdo em substituição
e arcos destroçados. No ângulo esquerdo, na capela
de Santo Aleixo, as obras de restauração acabam de
pôr a descoberto, caído o estuque das jDaredes laterais,
os vãos de dois pares de arcosolios ogivais que abri-
gam cada um seu sarcófago. Dois dos moimentos são
cobertos por estátuas tumbais ; do lado direito é um
bispo, quási informe pelas depredações sofridas ; do
lado esquerdo uma dona.
Na presença de José de Figueiredo, Luciano Freire
e Costa Mota, do Conselho de Arte, e de António
Couto, director das obras, procede-se à abertura dos
túmulos. Aparecem os pobres esqueletos, requeimados
e resequídos, dos grandes senhores que ali jouveram !
Na arca tumular do bispo ficaram as luvas e parte de
um tecido rico, que o meu amigo D. Sebastião Pessa-
nha estudou há pouco, no seu Núcleo de Tecidos^ II.
Fica-nos, como despojo opimo da visita, a memória
da estátua tumular feminina. A dona desconhecida,
cinta apertada por uma correia, esmolneira caída,
mantilha soqueixada monacalmente, está de mãos pos-
tas ; e dois anjos esguios, estendidos ao correr da pe-
dra, parecem segurar um lindo baldaquino gótico, no
género dos das sepulturas de D. Pedro e D. In,ês em
Alcobaça, docel de pedra filigranada que lhe cobre a
almofada onde repousa a cabeça.
Lam. IV
Tampa de ui-n sarcófago da capela
de Santo Aleixo (Sé de Lisboa)
(.Fotografia de Liiis Keil)
A capela de S- Domingos de Fontêlo
(LAMCõO)
Ta serra de S. Domingos, que extende a linha
irregular das suas corcovas pedregosas a E e
SE. de Lamego, coroando o píncaro mais ele-
vado dela, conserva-se ainda, quási sem modificações,
a capela que D. Afonso V lá mandou erigir para me-
mória da protecção divina ao seu tálamo real.
De facto, e segundo a tradição, o rei, desolado
com a esterilidade da esposa e depois de ter ex-
perimentado os mais variados adjuvantes para obter
geração, recorreu, como último remédio, à prática
supersticiosa de ir dormir uma noite em sembra com
a rainha, sobre uma velha pedra existente na serra de
S. Domingos.
Claramente se pode depreender da narração que se
tratava de uma pedra milagrosa conhecida por algum
fidalgo da côrté, vizinho de Lamego, crente nas qua-
lidades procreativas do penedo e que como tal o indi-
cou ao rei.
Não são raras no país e na Europa estas pedras, e
a de S. Domingos apresenta o especial interesse de
aparecer num lugar que foi o assento de um castro preis-
tórico. Vizinho da serra, cujas cumiadas avisto, do meu
casal das ribas do Douro, dominando a paisagem
132
enchendo-a para o lado do nascente, como para o-
norte e poente a dominam e atravancam as cristas do
Marão e seus contrafortes levantados desde a corrente
Kjg. 5i2
Capela de S Domingos
(Fologralia do uutnr)
do Rio, muitas vezes a percorri e lhe sondei os picos
e quebradas.
133
Logo a quando da primeira visita, era 1912, reco-
nheci que o cabeço onde se ergue a Capela fora o
centro de uma povoação preistórica, de que se encon-
travam ainda troços de muros e fragmentos cerâmicos
característicos da idade do ferro, sem iníiuéncia roma-
na. Estava explicada a origem da podra procriadora.
Yinha de tempos preistóricos a ideia supersticiosa que
a envolvia.
Procurei-a depois baldadamente na capela. Ninguém
me soube dar notícias, e a própria tradição da visita
rial anda quási perdida. A meu avô, homem forte de
outro ciclo histórico, cujos olhos assistiram ainda ao
despontar do clarão aurorial de um novo mundo, per-
guntei se a conhecia ou a tinha visto alguma vez.
Disse-me que, quando novo, acompanhava com a gente
da sua Penajoia as procissões propiciatórias a S. Do--
mingos, para extermínio do 'pulgão da vinha, a vira a
um canto da capela. Tinha vagamente o feitio de um
leito.
Algum abade escrupuloso e ignorante a terá feito
britar e incorporar nos muros de suporte do terraço
do santuário, esse terraço donde os olhos se enchem
de uma das grandes paisagens de Portugal...
A capela, fundação rial, como o demonstra o escudo
coroado que encima o gume do arco da porta princi-
pal, é um edifício de aparência modesta, todo de silha-
ria regular, de corpo e capela-mór rectangulares, com
uma só nave. Mede, interiormente, 11 metros por 7.42,
no corpo, e 0,1-4 por 4,98 na capela maior.
A porta principal, de ogiva, com duas arquivoltas
oblíquas, emmoldurada por um arco toreado recamado
externamente de flores estilisadas, tem os capiteis e
bases decoradas com uma faixa contínua adornada de
134
ramagem e mascarões toscos. A porta lateral direita,
subida sobre alguns degraus como a principal, é de
volta redonda, e mostra o tímpano recortado com sé-
ries de lóbulos do mais puro gótico joanino.
O interior, desataviado, é somente embelezado por
um belo arco triunfal, largo, com as pilastras e volta
salpicadas de motivos decorativos vegetais e animais,
e por uma porta de comunicação para a sacristia, com
o tímpano lavrado no mesmo gosto da porta lateral
direita.
Palácio dos Comendadores
e Igreja da 6ga
I^Sf^ uma légua, pouco mais, de Condeixa a Nova,
^t^oM ©noontra-se a pequena freguezia da Ega, hoje
@â!^â muito abandonada e decaída, mas que outr'ora
foi uma Comenda importante da Ordem de Cristo, que
em principies de século xvi levantou lá um palácio e
engrandeceu a igreja.
Três cousas ha dignas de menção, no povoado : o
pelourinho, também do século xvi, ainda com^in^a in-
teira e ângulos de tronco chanfrados — logo à entrada
da terra, numa baixa ; a igreja, a meia encosta de uma
ladeira; e, num alto, por fim, o palácio, arruinando-se
de mal cuidado.
Assenta o «Paço», como por lá dizem, sobre um ca-
beço redondo, cuja base pouco maior largura terá que
o âmbito dos alicerces, e as suas paredes elevam-se a
prumo do solo numa massa quadrangular, pesada e
maciça, que apenas para o Sul amacia a sua rigidez
geométrica com uns acrescentos mais baixos. O seu
exterior apresenta-nos uma interessante série de lar-
gas janelas manuelinas, condemnadas a desaparecer
brevemente, porque em parte os muros esboroam-se.
Algumas delas — três dos acrescentos e uma do palá-
cio, teem os arcos abatidos e as esquinas das ombrei-
136
ras chanfradas ; as outras — cinco de uma só luz e uma
geminada, com a coluna central torcida e arcos redon-
dos de bordos faceados (como umas de Alemquer) —
têm também as esquinas cortadas e as padieiras das
vergas largamente trabalhadas, mostrando um claro
exemplo do cuidado com que nessa época se lavravam
as cantarias de vista.
Mais algumas janelas havia, mas as guarnições de
pedra têm-lhe sido retiradas, e não será de grande pro-
feta dizer que o mesmo sucederá em breve ás outras,
já citadas, porque o palácio vae morrendo num aban-
dono, que, aliás não data de ontem ; já nas Memorias
Parochiaes, de 1758, o pároco, falando da cabeça da
sua freguesia, diz : «Não he terra murada, nem praça
d'armas e só no simo da vila se conservam huas pare-
des antigas, que ha tradiçam foram de habitaçam do
Comendador. . . e tem o nome de Paço».
De tempos remotos foi o lugar do Paço pertença e
moradia dos Comendadores. Na cVisitaçào da Ordem
de Christo» de 1508, fala-se de uma habitação grande,
mas não era ainda o actual palácio : esse foi construí-
do alguns anos mais tarde, a quando ás obras da igreja.
Este solar da Ega é um bom exemplar de palácio
manuelino, e merecia não ser esquecido das entidades
que superintendem sobre os monumentos portugueses,
talqualmente o seu parceiro da Pampilhosa do Botão,
quiçá mas interessante, e onde uma inscrição de 1510
testemunha á época exacta da construção. Esse palá-
cio do Botão, casa de recreio ou hospital das freiras
do convento de Lorvão, fundado por Catarina d'Eça
abadessa do grande mosteiro, tem as fachadas larga-
mente cortadas de janelas curiosas e muito variadas
que só por si dariam um bom contingente a quem qui-
137
zesse fazer o necessário álbum de desenhos das portas
e janelas manuelinas de todo o pais.
Tanto lá como na Ega se pode notar que houve da
parte dos arquitectos a preocupação de variar os de-
senhos das vergas e não deixar uma janela completa-
mente igual a outra, quer em luzes quer em ornamen-
tação.
E essa também uma das características da nossa
apropriação e ligeira modificação manueliua, do último
gótico.
A igreja é um edifício reconstruído no século xvi,
em pleno manuelino naturalista, sem mistura de later
íjothic ou de renascença, e encontra-se já modificada,
em partes, por sucessivas restaurações. Havia sido an-
teriormente uma igreja gótica que a «Visitação» de
1508 descreve, com a sua ousia alta exteriormente
aguentada em botareos^ com as suas paredes cafeladas,
a sua nave única e simples, e os alpendres das suas
duas portas.
A actual porta principal é singela, emoldurada de
troncos de laranjeira enlaçados, e coberta de uma
abobada de oarena, que um trifolio de cordão envolve,
€om cachos de três romãs pendentes das intersecções
dos lóbulos. A frontaria conserva ainda as ameias que,
à data da reconstrucção manuelina, rodeavam porven-
tura todo o alto do edifício. Do lado esquerdo existe
uma portinha de abobada trabalhada, muito seme-
lhante á única desse estilo que resta no claustro do
convento de S. Marcos.
O corpo da igreja, de uma só nave, está revestido
138
até certa altura de azulejo a branco e azul, em que os
desenhos são séries de uma espécie de cruzes de S. Tia-
go, brancas ; deve ser do século xviii, porque no «Tom-
bo» de 1705 ainda não figura.
Chegadas ao arco da capela-mór abrem-se na nave
duas capelas, fronteiras e iguais, de boa renascença^
com belos portaes e esplendidas cúpulas lavradas e
pintadas, um tanto abatidas, sendo na da esquerda os
Clãs de lamp figurinhas de anjos em relevo. Esta capela
da esquerda, do Senhor Jesus, é forrada de azulejo
de laçaria, igual ao do corpo da igreja.
Na capela da direita admira-se um retábulo de pe-
dra, de renascença pura, dividido em seis quadros — ou
seja um triptico de dois andares — , com santos nos
nichos inferiores e nas predelas, e um quadro da
Ceia na divisão central superior, sobre o tabernáculo.
Nos portais, faltam os spandnls, onde os auctores da
renascença francesa colocavam os graciosos óculos de
figuras. As vergas assentam em dois curtos modilhões
saidos para o vão das ombreiras rectas, que colunas
em tabernacle icork avivam do centro para a parte su-
perior.
Esta capela da direita, do Santíssimo, tem as paredes
cobertas de azulejos brancos e azues que formam com-
binações de caixilhos, como em Celas, Sé Velha, etc,
notando-se em muitos vestigios de uma douragem pos-
terior.
O arco da capela-mór é torcido, de volta redonda
perfeita, sendo a ornamentação das ombreiras externas^
de troncos chagados dos característicos nós cortados, e
a das internas, de bolas até á altura dos capiteis, e, de-
pois no arco, de rosas quadradas, — como no arco do
campanariosinho da capela de BrUnhós (Soure), etc.
I
139
O tecto da mesma aguenta-seem nervuras finas, cujos
pés se apoiam em misúlas de figuras, (uma cabeça
de homem, caras anchas, um carneiro, etc.) e o de-
senho dos artesões de ligação, que faz lembrar quatro
abobadas de carena hgadas pelos pés, é absolutamen-
te igual ao da abobada do coro de S. Paulo de Alma-
siva ou de Frades.
O fecho central da abobada tem lavrada a cruz de
Cristo.
As paredes estão forradas de azulejo idêntico ao da
capela do Santíssimo. Na «Visitação» de 1508, os vi-
sitadores aconselham o comendador-moor a que colo-
que depressa os azulejos que havia comprado ha pou-
co : não podem ser estes, nem os do corpo da igreja,
muito menos antigos. Tratava-se, evidentemente, de
azulejos sevilhanos.
O mais interessante porém da capela-mór, e da igre-
ja, afinal, é o retábulo pintado, o painel da Senhora da
(jrraça, protectora d^ Comenda.
E um triptico de madeira com o pano central mais
elevado que os lateraes, razoável pintura do século xvi,
retocada em alguns pontos, deteriorada noutros com as
covas dos pregos que os armadores quando da festa do
Santíssimo se entretinham a fazer-lhe para segurar o
trono das exposições solenes.
No pano central vê-se a Senhora da Graça numa sedia^
com o menino ao colo, e ambos, mãe e filho, olham para
um cavaleiro de Cristo, de barbas pretas e caidas,
que de joelhos, envergando o manto da Ordem, com
um missal aberto nas mãos, os contempla também de-
votamente. No pano da direita ha uma visão de S. Paulo;
no da esquerda aglomeram-se várias scenas : dois san-
tos grandes, barbados, no primeiro plano, depois um
140
magote de legionários, e no alto, muito pequeno, como
figura de aparição, um Christo carregando a cruz.
No saio de am dos legionários deste pano encon-
tra-se, o que é muito importante, um monograma :
I. Gr. Quem será este pintor quo assigna I Gr. e cujo
nome não encontro no Dicionário de Sousa Viterbo ?
Se o nome do pintor nos é desconhecido, uma cousa
consegui ao menos saber : o nome do personagem ajoe-
lhado e a época do quadro.
Filipe Simões, a páginas 246 dos Escritos DiVtrsos, diz
o seguinte : «Na egreja da Ega, perto de Condeixa,
conserva-se um retábulo com três pinturas ; na princi-
pal delias está um cavalleiro de Christo, cujo rosto,
nada flamengo, se assemelha ao d'el-rei D. Manuel».
Numa nota a seguir, apresenta depois a hipótese de
ter o quadro sido doado pelo próprio D. Manuel, que
era grão-mestre da Ordem.
Infelizmente nada disso é verdadeiro ; nem o quadro
é gótico, nem foi oferecido por D. Manuel. O retratado
deve ser um comendador da Ega, que viveu em fins do
século XVI e começos do século xvii, D. Afonso de Len-
castre, como parece provar o único documento que en-
contrei, referente ao retábulo. E este o Tombo da Co-
menda-mór da Ega, em 1705, em que a páginas 40 v,°,
se encontra o relato da medição da igreja, nos termos
seguintes : a Achou que a dita Igreja matriz desta villa,
e era da invocação de Nossa Senhora da Graça a qual
tinha capela-mór na qual estava o altar maior da dita
Senhora da Graça e nella hum retábulo bem pintado
de boas pinturas com suas colunas e divisoius e rema-
tes e guarnissoiíls tudo dourado sobre madeira e divi-
dido em três painéis e no de meio está a pintura da
Senhora asentada com hú minino no coUo e ao pee de
141
giollios retratado o Comendador mor que foi desta Co-
menda Dom Afifonso de Alencastre e nos dous painéis
que estão nas ilhargas deste no da parte do Evange-
lho se vê a pintura de São Pedro no passo da queda
de Simão Mago e no outro painel está a pintura da.
queda de São Paulo e no remate em sima do Painel
da Senhora está hum Painel com a pintura do Padre
^Eterno sobre o qual está o escudo das armas Reais
sobre a crux de Christo ...»
Assim reza, continuando depois com a descrição da
igreja, o documento que mais perto está da época da
ofeita do painel. Havia um Tombo do começo do sé-
culo xvii que esclareceria de todo a questão. . . se nãa
tivesse desaparecido.
Portas manuelinas dos arredores
de Lisboa
[xcÉTUADOS OS edifícios dos Jerónimos, Torre
de Belém e Paço de Sintra, onde o rnanutlino
se manifesta exuberante e copiosamente, pou-
cos são os restos desta maneira construtiva e decora-
tiva do gótico, que os terremotos ou as restaurações
deixaram chegar até nós, em Lisboa e seus arredores.
Como trechos isolados ficaram, na capital, os portais
da Conceição Velha, da Madalena, da ermida dos Re-
médios, em Aliáma, de um outro edifí^^io religioso na
Eua da Mouraria; as portas da «Casa dos Bicos» e
de várias outras casas particulares ; e, finalmente, o
interessante claustro do «Coleginho» de Santo Antão
o Velho, que foi a primeira casa que a Companhia de
Jesus teve em Portugal.
Nos arrabaldes a pobreza de edifícios ou troços de
edifícios manuelinos é ainda maior. Conservam-se con-
tudo as portas de Cheias, da Madre de Deus, em Xa-
bregas, da igreja matrís do Lumiar, da capela de S.
Sebastião, do mesmo lugar, da igreja da Póvoa de
Santo Adrião, da matrís de Belas, etc
Em estudo que preparo deixarei relacionados e foto-
grafados todos os restos manuelinos que perduram na
Estremadura. Vêr-se há então como foi a essa provín-
14t
cia que maior quinhão coube, em quantidade e quali-
dade, do estilo brilhante e rico que artistas portugue-
ses G espanhóis, conjuntamente, souberam arrancar dos
velhos modelos góticos.
Kig. õ3
I-^orta ;3a Capola de S. SebastiSo, no L,\imiar
(Koloíínina do ;uilor)
Acompanham esta nota, como exemplificação, três
portas pouco conhecidas : a da matrís de Belas, a da
igreja da Póvoa de Santo Adrião e a da capela de S.
Sebastião, no Lumiar.
Monumentos de Fóvos do [Ribatejo
jciiAS vezes havia eu já notado do comboio,
passada Vila Franca, a curiosa série de três
cabeços que se seguem à povoação, a mon-
tante, estranhos de aparência, o primeiro liso è ín-
greme, sarrudo de mato, o segundo salpicado de olival,
e o último, já dominando a Quinta das Areias e a Cas-
tanheira, vestido de pinhal denso. Solicitava especial-
mente a atenção o do meio, menos elevado que os vi-
zinhos, cujo topo aparecia confusamente coroado de
ruinas dentre as quaes se projectava uma cúpula bas-
tante subida, vagamente russa de aspecto, sobresaindo
com a crueza de um borrão de cal no amarelo- escuro
do solo e dos restos de muros. A velocidade do com-
boio, porém, a breve trecho substituia por outros este
scenário, e esvaídas como o fumo da locomotiva as hi-
póteses rápidas que, ácêrca das ruinas, eu arquitectava,
ficava apenas de pé o desejo de, mais tarde ou mais cedo,
fazer o seu reconhecimento.
Por um florido e cálido 15 de Maio, em 1913, per-
corri pela primeira vez o cabeço, e do que n^ssa e em
subsequentes visitas vi, faço agora um curto apanhado,
torrageado no maço de apontamentos que tenho rotu-
lado com o nome de «Povos».
10
14G
A meia légua de Vila Franca, para N. E., seguindo
para montante da corrente do Tejo, fica a pequena al-
deia de Povos, antiga vila hoje decaída da sua impor-
(I'(>l<>(,'ilili:i cl<i JHiloii
tância, mas em que um lindo pelourinho manuelino, re-
centemente restaurado pelos cuidados de uma distinta
147
família da região, ficou atestando a categoria munici
pai desse modesto agregado rural.
Este pelourinho, ao contrário do que sucedeu a tan-
tos outros por esse país fora, tem sido altamente ba-
fejado pela sorte. Fizeram-lhe a história, restauraram-no
e conservam-no com amor.
No seu curioso livro sobre as Antiguidades do moder-
no concelho de Vila Franca (Lisboa, 1893J^ Lino de Ma-
cedo transcreveu, a propósito da vila de Povos toda
uma larga memória manuscrita que o Dr. João Amaral,
filhote da terra e miguelista da gema, escreveu aí por
185<), crivada de erros de vária espécie, resfolgante de
chamorrismo recolhido. Por duas vezes o bacharel (mui-
to velho à data da redacção da memória, o que o des-
culpa de todos os seus pecados) se ocupa do pelouri-
nho. Numa das referências escreve que ano meio desta
rua (a Direita) se vê a praça da villa com o seu pelou-
rinho com os vestígios de golilhas com que puniam os
crimes de posturas da câmara e também tem o escudo
com as armas dos condes da Castanheira» ; e na outra
acrescenta que o monumento assentava sobre uma pea-
nha de quatro degraus e que tinha vinte e tantos palmos
de alto.
Hoje são somente dois os degraus sobre que se firma
a coluna do pelourinho. ^Sipinhu cravam-se quatro bra-
ços de ferro, dispostos em cruz, os quais terminam em
cabeças estilisadas de animal, donde pendem quatro ar-
golas. No capitel, escudetes em relevo ostentam as bar-
ras oblíquas do escudo dos condes da Castanheira. Uma
decoração característica do manuelino na sua face na-
turalista veste a coluna nas duas partes em que a di-
vide, pelo meio, o engrossamento duplo, do tronco.
Seriam todos os pelourinhos providos, primitivamen-
148
te, destes ferros e argolas, que também tenho encon-
trado noutros pontos, por exemplo, bem perto de Lis-
boa, em Vila Fresca de Azeitão ? Há quem opine que
^!' :.,-tifm^
Kig, Õ4
l'ori;il da motrlx fie >-ielí-is
(I'»tOKi:>lia lio iilitor)
sim, e acrescente que esses aparelhos serviam para enfor-
car, expor e apolear os criminosos, tendo sido manda-
dos arrancar depois do advento do constitucionalismo;
e há também quem julgue o contrário, considerando-os
149
meros enfeites. Sem pretender discutir o vellio tema
da diferenciação entre pelonrinhos e picotas, limito-me
a transcrever alguns períodos do Livro II das Lendas
da Índia, de Gaspar Correia, que alguma cousa informam
acerca do destino dos braços e argolas dos pelouri-
nhos.
De pág. 441 : *< Durando o trabalho da obra, o Go-
vernador (Afonso de Abuquerque) mandou no bazar
da cidade (Ormuz) fazer uma picota sobre um mas-
to. com muytos degraos em derredor, è no masto pos-
tas muitas argolas e ganchos para enforcar, e hum cepo
preso por cadea para cortar nelle mãos e cabeças ; o
que sendo acabado, o Governador, de noite, com pou-
cos homens a foy vêr, e chegando a ella, pôs os joe-
lhos no primeyro degrau, e com o barrete na mão, disse :
— Deos te salve pêra sempre, e acrescente em verdade,
vara de real justiça d'El-E,e3' nosso senhor, per Deos
querida e amada pêra punição dos máos e conservação
e guarda dos bons que pouco podem — ».
E mais adeante : aPelo que se forão; mas achando
algum de que as molheres faziáo acusações, o Gover-
nador os mandava atar nos collares da picota, e me-
ter-lhe uma frecha atravessada nos narizes. . . »
Deliciosas scenas de costumes do século xvi, que,
além de tudo o mais, nos esclarecem sobre a função
dos tais ganchos e argolas, hoje tão raros !
Seguindo Rua Direita fora deparava-se, do lado es-
querdo, com a igreja matriz, da invocação de N. S. da
Assunção, que o Dr. Amaral na sua memória diz ter
ficado arruinada no terremoto de 1755 e haver sido
reconstruida no ano de 1790.
A igreja paroquiai de Povos do Ribatejo eraumtem-
plosinho de mediana grandeza, bem proporcionado, do
150
século XVI, adornado com um belo portal talhado e flo-
reado em mamielino naturalistico.
E digo era porque o presbitério já não existe. Em
seu logar levanta-se agora, vasta, alegre, higiénica, a
escola da povoação, que oxalá se aguente de pé tan-
tos séculos, pelo menos, quantos lá se conservou o
templo, do que duvido, atento o péssimo material com
que hoje se edifica.
E esta, que me conste, a primeira vez que uma igreja
desaparece para nos seus alicerces se levantar uma es-
cola. Templos transformados em casas de educação,
encontramos com frequência, em Portugal, em França,
na Espanha ou na Itália; mas o caso apontado de um
desaparecimento total, é, poremquanto, ao que me cons-
ta, virgem. E eu aponto-o, além de tudo o mais, para que
fique delimitado com precisão o ponto onde os futuros
arqueólogos hão-de procurar o uhi da igreja de Povos.
De resto, esse pobre santuário estava de há muito,
desde o mégasismo, absolutamente condenado, arrui-
nado, caindo aos pedaços ; destelhado, servia, na oca-
sião da minha primeira visita, de cavalariça. Faltava-
-Ihe já o seu lindo e característico portal, que, segundo
me informaram, fora comprado por um ricaço quahjuer,
e levado para Sintra, onde de novo o haviam armado.
O solo desaparecia sob montes de destroços e de lenha,
atravez as abertas da qual alvejavam as tampas se-
pulcrais da carreira central da nave. Dentre essas pe-
dras, copiei as inscrições incompletas que indicavam
as sepulturas de uma Antónia Barroza, falecida a 12
de janeiro de 1648; de Maria Chaves d'Aguiar; e de
um Bizarro. . . falecido no ano de 1540. Esta inscrição,
ainda em letra gótica, pode talvez servir-nos para de-
limitar a data possível da terminação da igreja, pois
151
como 86 sabe o manutlino internou-se pelo século xvi até
quási ao seu meado, não faltando santuários desse es-
tilo construídos posteriormente a 1530,
Na minha última visita a Povos fui encontrar o adro
e o caminho que o liga com a estrada, pejados de lages
de calcáreo e de pedras afeiçoadas que haviam perten-
cido ao pavimento do templo. Não vi entre elas, as já
mencionadas; mas deparei com duas ainda inéditas,
uma das quais diz : tS. de Manoel Cosmo e da sua mo-
Iher lues Guuma Lhba e de seus erdeivos faleseo a 2õ de
Março de 1628; e a outra: aS'.* do Capitão Ant.'^ Cosmo
e de seus erd,"' fcd^° em Fevereiro de 1646. s
E curioso notar como nas inscrições os apelidos das
mulheres tomam uma terminação femenina : Barroza,
Loba.
Junto da escada que dá acesso à escola atual per-
manece a pia de água benta da igreja, um monolito em
forma de cálix, de copa e pé oitavados, também em
estilo manuelino. Tem 1,20 de altura, está em razoável
estado de conservação, bem podendo figurar num mu-
seu de Lisboa, se em Lisboa existissem museus desti-
nados a receber, como nas cabeças dos distritos, os
monumentos de arqueologia moderna que a cada passo
aparecem nas demolições e transformações dos edifícios
da capital.
Ao norte da povoação, servindo-lhe de fundo, ergue-se
uma colina pronunciadamente cónica, de encostas de-
clivosas, a cujas faldas se encostam as casas de Povos
que ficam do lado esquerdo da estrada que segue ao
Carregado e a Santarém. Essa colina aparece isolada,
]õ-.á
por completo desligada dos montes que a precedem e
a continuam, antigas balisas naturais e primárias da
margem direita do Tejo. Olhada da estrada, a altura
do cabeço, coroada por uma capela meio escondida pelos
paredões escalavrados de uma velha moradia de vastas
dimensões que se alça sobre os pendores orientais do
monte, aparenta um ar de abandono e ruina que con-
frange, apezar das manchas alegres das oliveiras.
Trepada de frente a íngreme ladeira, o que primeiro
chama a atenção quando nos encontramos no cimo é uma
muralha, alta em pontos mais de 4 metros, assente so-
bre os afloramentos do grés, que é a rocha estructural
do monte, muralha construída de duas idas paralelas
de aparelho miúdo revestindo uma massa fortemente
aglutinada de pedras irregulares.
Toda a coroa do monte é guarnecida de muros como
este, em parte esboroados, em parte enterrados, os quais
seguidos cuidadosamente deliniam uma fortificação pro-
vavelmente de plano rectangular, alongada ao correr da
crista na direcção nordeste-sudoeste. Do lado que olha
o Tejo esta muralha prolonga-se, quási intacta, por es-
paço aproximado de 70 metros, quási em linha recta;
do lado contrário lobriga-se ainda á flor do terreno, por
mais de 20 metros. Nos lados menores do rectângulo,
embora se reconheçam, aqui e ali, restos de alvenaria,
não se consegue balisar o traçado primitivo, que devia
acusar a largura de 25 metros entre os lados maiores.
O fortim, pois é do que se trata, poderia medir uns
70 metros de comprido por 25 de largo, e ocupava uma
posição defensiva e estratégica, explendida, pela difi-
culdade do acesso e pela proximidade do rio, então mui-
to mais chegado a Povos, de que só se começou a afas-
tar no fim do século xviii.
15;?
A situarão especial deste cabeço, fácil de defender,
pouco elevado, colocado a cavaleiro da estrada margi-
nal que desde tempos imemoriais ligava Lisboa a San-
tarém, estrada que os romanos apenas aproveitaram e
melhoraram, fez com que o guarnecessem de muros e
o transformassem num posto militar.
Em que época foi realizado este trabalho ? O sim-
ples exame superficial dos muros afasta logo a ideia
de um trabalho romano, pois que nem a disposição das
pedras nem o material apresentam afinidades com o
empregado pelos dominadores do mundo antigo. Tem
de procurar-se em tempos mais chegados ao nosso, essa
época. Trata-se, evidentemente de um trabalho medie-
val, talvez datando da fundação da monarquia.
Para nordeste, era plano um pouco inferior, ao nível da
base das muralhas, ficam a capela do Senhor da Bôa
Morte, que deu o nome ao cabeço, e o casarão arrui-
nado que já mencionei e que nada nos interessa.
A capela é formada de dois corpos rectangulares,
de desigual largura e comprimento, e de uma só navei
O seu arco triunfal, de duas faces, bem talhado em
ogiva fresca e alta, com os capiteis adornados de bo-
las, é uma bôa construção do século xv, pertencendo
também à segundo metade desse século os pináculos
cónicos de base em denticules, que coroam os botareus
da capela-mór, A cúpula, alta, oitavada, firma-se em
nervuras de tipo mais recente.
É junto do adro da capela, no ponto em que a rocha
aliora, que se divisam, excavados no grés, os restos
de umas 20 sepulturas antropomórficas, medievais,
Seguem-se os sarcófagos lado a lado, em diversos an-
dares no declive, vendo-se alguns acompanhados de
cavidades oblongas destinadas a receber os pés daque-
151
las pedras sepulciais, discoides, de que me ocupei em
estudo anterior.
No chão, a pouca distância do santuário deparei
com a cabeça de uma ara romana, com 0,70 de lado,
e 0,25 de altura até um cordão lavrado que lhe corre
em volta rematando o ornato ondulado, de estilo
clássico, que veste as quatro íaces da pedra. Vê-se
pois que, a menos da pedra ter sido levada para ali
posteriormente, o que não é natural, existiu no local
um santuário rural, uma dessas capelinhas em que
se venerava qualquer divindade secundária, das que
enxameavam no pauteon latino e lusitano, e que
os viandantes que passavam cá em baixo, na via las-
tricata que levava a Scalabis e a Emérita, olhariam
com religioso respeito.
Toda a história do cabeço do Senhor de Bôa Morte,
de Povos, pode ficar assim condensada.
Tempo de romanos : — Existência de um santuário,
capelinha, ou fanum consagrado a uma divindade do
panteon lusitano-romano.
Tempos medievais; — a) Fortim medieval, possivel-
mente erguido para defesa da margem direita do Tejo
contra as incursões dos Mouros alentejanos ; h) Capela
e sepulturas antropomórficas do século xv.
Tempos modernos : — Modificações na capela. Cons-
trução do casarão setecentista, hoje arruinado.
índice dos capítulos
1 — Arcos romanos de Portugal Pág. 7
2 — O templo romano de Sant'Ana do Campo (Arraio-
los) » 17
3 — A igreja de Louroza da Serra da Estrela » 25
4 — Monumentos medievais de Lamego » 39
5 — Nossa Senhora de Cárquere » 47
6 — A igreja de S. Martinho de Mouros » 69
7 — A igreja de Barro » G7
8 — A igreja paroquial de Barcos (Taboáço) » 75
9 — A capela de Sabrôso (Barcos) « 81
10 — Cabeceiras de sepultura medievais u 87
11 — N. Senhora da Azinheira de Outeiro Seco (Chaves) » 99
12 — A igreja de Santo André, em Mafra » 103
13 — Esculturas arcaicas do Museu de Lamego » 109
14 — Virgens pejadas u 119
15 — A capela da Senhora de Guadalupe (S. Paio — Vila
Real » 125
16 — Uma estátua tumular da Sé de Lisboa » 129
17 — A capela de S. Domingos de Fontêlo (Lamego). . . » 131
18 — Palácio dos Comendadores e igreja da Ega » 134
19 — Portas manuelinas dos arredores de Lisboa .... u 143
20 — Monumentos de Povos do Ribatejo » 145
índice das gravuras
Fig. 1 (em íolha separada) Arco romano de Aramenha.
10 — Porta de Mertola (?), em Beja.
11 — Porta de Avis, em Beja,
13 — Antiga porta de Évora, em Beja.
14 — Arco da Bobadela.
15 — Porta do palácio ducal de Vila Viçosa.
19 — Templo romano de Santana do Campo (Arraio-
los), Lado poente.
21 — O que resta do braço de poente.
23 — O que resta do braço de nascente.
24 — Planta do edifício.
29 — Inscrição da igreja de Louroza (Era dccccl).
33 — Arco lateral na igreja de Louroza.
49 — Torre do mosteiro de Cárquere.
51 — Vista geral do mosteiro.
58 — Planta dos edifícios do mosteiro.
55 — Imagem de Nossa Senhora de Cárquere.
57 — Janela românica de Cárquere.
61 — Igreja de S. Martinho de Mouros.
63 — Torre de S. Martinho.
65 — Planta da igreja de S. Martinho,
69 — Frontaría da igreja de Barro.
71 — Porta principal da igreja de Barro.
73 — Planta da igreja de Barro.
76 — Porta lateral direita da igreja de Barcos.
77 — Porta lateral esquerda da igreja de Barcos.
79 — Placa de marfim representando a «Anunciação».
81 — A capela de Sabrôso (Barcosj.
83 — Tampa de sarcófago, pedras tumulares e cabe-
ceiras de sepultura, no adro da capela de
Sabrôso.
2
P-
3
P.
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26
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27
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28
P'
158 índice das gravuras
Fig. 29 p. 84 — Pedras sepulcrais do interior e do adro da ca-
pela de Sabrôso.
> 30 p. 88 — Cabeceiras de sepulturas dos museus de Évora
e Lisboa.
» 31 p. 88 — Cabeceiras de sepulturas de Lisboa. Beja e
Coimbra.
u 32 p. 89 — Cipo do tigiiarius.
» 33 p. 90 — Cipo do Itctarius.
» 34 p. 91 — Cabeceiras de sepulturas do museu de San-
tarém.
» 35 p. 92 — Idem.
» 36 p. 93 — Idem.
» 37 p. 95 — Idem.
u 38 p. 96 — Semeador romano.
u 39 p. 97 — Pedra tumular de um ferrador, em Santo Ama-
ro (Beja).
M 40 p. 98 — Cabeceira discoide de Sousel.
» 41 p. 99 — Pedra tumular da igreja de Outeiro Seco.
» 42 p. 100 — Planta da igi'eja de Outeiro Seco.
« 43 p. 101 — Porta principal da igreja de Outeiro Seco (Cha-
ves).
» 45 p. 104 — Porta principal de Santo André (Mafra).
u 46 p. 105 — Porta lateral direita de Santo André.
« 47 p. 107 — Trecho da faixa ornamental do centro da abó-
boda da capela-mór da igreja.
u 48 (em folha seperada). Esculturas arcaicas do museu de
Lamego. Nossa Senhora, e S. Paulo.
•• 49 (em folha separada). Virgens pejadas, de Lamego (Mu-
seu e Balsemão).
•> 50 p. 127 — Capela da Senhora de Guadalupe (S. Paio —
Vila Real).
« 51 (em folha separada) Estátua tumular da capela de San-
to Aleixo (claustro da Sé de Lisboa).
» 52 p. 132 — Capela de S. Domingos de Fontêlo.
u 53 p. 143 — Porta da capela de S. Sebastião, no Lumiar.
u 54 p. 146 — Porta da igreja de Povoa de Santo Adrião.
» 55 p. 148 — Porta da matriz de Belas.
Erratas
102
107
116
121
128
ondi- SC lé
lcia-»e
século XV
século XVI
faicha
taixa
meadas
meados
góticos
gótico
bocal
local
Entre as obras do autor, mencionadas a pág. 4, figuram
como publicados em 1919, os trabalhos : AzuUjos Datados (2.*
ediçào), e Um tímido Renascença. Dificuldades tipográficas insu-
peiáveis fizeram com que esses trabalhes, destinados a apare-
cerem antes deste, só possam estar postos à venda posterior-
mente à publicação dos Monumentos e Esculturas.
NOVIDADES LITERÁRIAS
JfíRDim Dfí EUROPfí
(Casos, tipos e aspectos de Portugal ; meditações e here
sias de um Português)
POR
Agostintio de CaiTipos
1 vol. in-irj (ISX 12'-'"')
Br. í$00, ene. IS500.
EDUCAR
(Na Família, na Escola e na Vida)
P3R
Agostinlio de Cart:ipos
1 vol. in-Uí (18 X 12=ni)
Br. tSOO, ene. I$50.
POR
Agostinho de Campos e Alberto d' Oliveira
1 vol. in-iri (lSX12'--n')
Br. 1$30, ene. íS70.
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Br. rSOO, ene. fSSO.
&J^.'\rC^1FTrV .JLTT/L
Mi Sif gSíil
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Edição definitiva das obras
DE
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Conforme com as edições da vida do autor, dirigida por
Professor da Faculdade de Lettras da Universidade
de Lisboa
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Correia, Vergilio
Monumentos e esculturas